Quando a miséria vira normalidade

Quando a miséria vira normalidade

Se Victor Hugo observasse o Brasil de hoje, dificilmente se deixaria seduzir por gráficos otimistas ou slogans de ocasião. Seu olhar se fixaria onde o Estado costuma passar rápido demais: nas esquinas da exclusão, nas periferias esquecidas, nos rostos que não cabem nos relatórios oficiais. Para Hugo, a pobreza nunca foi um acidente social. Sempre foi o sintoma visível de uma falha política e moral.

O autor de Os Miseráveis insistia numa ideia incômoda para qualquer poder constituído: a miséria não nasce da preguiça dos pobres, mas da omissão dos sistemas. No Brasil contemporâneo, essa leitura soa desconfortavelmente atual. A desigualdade não decorre do acaso, tampouco da falta de recursos, mas da naturalização de um país que convive com abundância ao lado da carência extrema sem tratar isso como contradição intolerável.

Hugo reconheceria aqui milhares de Jean Valjean modernos — trabalhadores empurrados para a informalidade, jovens privados de educação de qualidade, famílias inteiras vivendo sob permanente precariedade. Pessoas que não pedem heroísmo, apenas oportunidade. O drama, como ele apontaria, é que o mesmo Estado que falha em garantir direitos costuma ser ágil ao punir desvios. A justiça, quando chega, muitas vezes chega torta: rigorosa com os frágeis, indulgente com os poderosos.

O escritor francês também se inquietaria com nossas cidades partidas. Centros urbanos que exibem modernidade e consumo cercados por cinturões de pobreza tratados como paisagem inevitável. Para Hugo, não há progresso verdadeiro quando a dignidade vira privilégio. Segurança pública, diria ele, não se constrói com muros mais altos, mas com menos humilhação cotidiana. A exclusão é uma violência silenciosa — e toda violência, cedo ou tarde, cobra seu preço.

Reduzir Victor Hugo a um acusador seria injusto. Seu pensamento sempre carregou uma aposta obstinada na transformação. Ele lembraria que cada escola aberta é uma cela fechada; que políticas públicas consistentes valem mais do que discursos inflamados; e que a compaixão institucionalizada — aquela que se traduz em direitos — é o verdadeiro motor da civilização.

O Brasil gosta de se imaginar um país cordial, resiliente, capaz de conviver com suas contradições. Hugo desmontaria essa autocomplacência. Nenhuma nação se engrandece administrando a pobreza; engrandece-se quando decide enfrentá-la. Modernidade, para ele, não é retórica de crescimento, mas a coragem de não abandonar ninguém à margem.

Se tivesse de resumir sua advertência ao Brasil, Victor Hugo seria direto: enquanto a miséria for tratada como normalidade, toda promessa de futuro não passará de literatura — e da pior espécie.

Por Palmarí H. de Lucena