Quando a máquina pensa, para que serve a universidade?

Quando a máquina pensa, para que serve a universidade?

Se a inteligência artificial já consegue escrever, pesquisar, programar, traduzir e analisar informações em uma velocidade que nenhum ser humano consegue acompanhar, o que devemos ensinar aos nossos estudantes?

A pergunta já não pertence ao futuro. A inteligência artificial entrou nas salas de aula, nos hospitais, nos escritórios, nos tribunais e nas empresas, provocando uma revisão das certezas sobre as quais construímos boa parte da educação moderna. Mais do que incorporar uma nova tecnologia, estamos diante da necessidade de repensar a própria finalidade da formação superior.

As universidades ainda parecem reagir entre dois extremos. De um lado, estão os que enxergam na inteligência artificial uma solução para quase tudo, capaz de acelerar processos, reduzir custos e ampliar a produtividade. Do outro, os que a recebem com desconfiança, como se toda inovação tecnológica representasse uma ameaça à inteligência humana, ao professor e à própria universidade. Talvez os dois lados estejam olhando para a questão pelo ângulo errado. O debate decisivo não é sobre aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas sobre compreender o que passa a ser essencial na formação de uma pessoa quando parte crescente das tarefas intelectuais pode ser realizada por máquinas.

Durante séculos, ensinar significou, em grande medida, transmitir conhecimento. O professor era o principal mediador das informações; a biblioteca, um território privilegiado do saber; e a memória, uma das principais ferramentas de aprendizagem. Saber muito significava, em boa parte, lembrar muito.

A inteligência artificial altera esse modelo. Hoje, uma máquina pode produzir em segundos um texto que levaria horas para ser escrito. Pode cruzar milhares de informações, reconhecer padrões, formular hipóteses, auxiliar diagnósticos, traduzir idiomas e organizar conhecimentos espalhados por diferentes fontes. Isso não diminui o valor do conhecimento, mas muda sua relação com a educação.

Quando a informação se torna abundante e imediatamente acessível, acumular informação deixa de ser suficiente. O estudante precisa aprender a distinguir uma evidência de uma opinião, uma correlação de uma relação de causa e efeito, uma resposta plausível de uma resposta correta. Precisa saber formular perguntas, confrontar fontes, identificar pressupostos e perceber as consequências de uma decisão. A inteligência artificial pode participar de todas essas etapas, mas a responsabilidade pelo julgamento continua sendo humana.

É nesse ponto que a universidade precisa deslocar parte de sua atenção: da simples aquisição de conteúdo para o desenvolvimento da capacidade de interpretar e utilizar o conhecimento. Não significa abandonar o conteúdo. Um profissional sem conhecimento técnico não será capaz de exercer julgamento qualificado. Significa reconhecer que conhecimento e julgamento são coisas diferentes e que, na era da inteligência artificial, a diferença entre os dois se torna ainda mais importante.

A medicina oferece um exemplo eloquente. A inteligência artificial pode examinar imagens, cruzar sintomas, consultar enormes bancos de dados e identificar padrões que poderiam escapar ao olhar humano. É uma revolução extraordinária, que seria pouco sensato rejeitar. Mas o paciente continua sendo mais do que aquilo que aparece na tela. Tem uma história, uma família, medos, esperanças e contradições. Às vezes, antes de uma resposta técnica, precisa de uma explicação; antes de um tratamento, pode precisar de confiança. Há situações em que o essencial não aparece em nenhum exame, mas na capacidade de ouvir e compreender quem está diante de nós.

É nesse espaço que ganha força a ideia de humanics, conceito que procura recolocar as qualidades humanas no centro da formação profissional. Empatia, pensamento crítico, criatividade, competência cultural e capacidade de adaptação deixam de ser atributos complementares e passam a ter importância estratégica em um ambiente profissional cada vez mais tecnológico.

Mas é preciso ir além da ideia de que humanics significa simplesmente ensinar habilidades humanas. A questão é mais profunda. A formação humanística ajuda o estudante a compreender que nenhuma decisão profissional existe isoladamente. Toda decisão produz consequências sobre pessoas, instituições e comunidades. Um algoritmo pode indicar a solução mais eficiente para determinado problema, mas eficiência não é sinônimo de justiça, adequação ou benefício social.

Essa distinção será cada vez mais importante. Imagine, por exemplo, uma empresa que utiliza inteligência artificial para selecionar candidatos a um emprego. O sistema pode processar milhares de currículos em poucos minutos e identificar padrões associados ao desempenho profissional. A eficiência é evidente. Mas quem examinou os critérios utilizados pelo algoritmo? Quem verificou se determinados grupos estão sendo sistematicamente prejudicados? Quem decidiu que aquelas variáveis deveriam determinar uma oportunidade de trabalho?

A tecnologia pode executar uma decisão. Antes disso, alguém precisa decidir quais valores orientam a decisão.

É justamente nesse território que a universidade não pode se retirar. A inteligência artificial pode ampliar a capacidade técnica de um profissional, mas não elimina a necessidade de julgamento, responsabilidade e sensibilidade diante das consequências de suas escolhas. Pelo contrário: quanto maior o poder da ferramenta, maior tende a ser a responsabilidade de quem a utiliza.

Esse é um dos grandes desafios da universidade contemporânea. Não faz sentido formar estudantes apenas para dominar ferramentas que poderão estar ultrapassadas antes mesmo de eles concluírem seus cursos. A tecnologia muda em uma velocidade que os currículos dificilmente conseguem acompanhar. O que permanece é a capacidade de aprender, reaprender, questionar e adaptar-se.

Por isso, a formação universitária precisa combinar dois movimentos que muitas vezes são tratados como opostos: aprofundar o conhecimento técnico e ampliar a formação humanística. O profissional do futuro não será menos especializado por compreender ética, cultura, comunicação, comportamento humano e pensamento crítico. Ao contrário. Será mais preparado para utilizar sua especialização em situações complexas, nas quais nenhuma resposta pode ser encontrada apenas pela aplicação de uma fórmula.

Isso não significa temer a inteligência artificial. Significa conhecê-la suficientemente bem para utilizá-la com discernimento. O estudante precisa aprender a utilizar essas ferramentas, mas também a questionar seus resultados e compreender suas limitações. Uma resposta produzida por inteligência artificial pode ser sofisticada e convincente e, ainda assim, estar errada. A formação universitária precisa preparar o profissional para reconhecer essa possibilidade e decidir o que fazer diante dela.

Há, porém, uma questão ainda mais ampla. Enquanto construímos máquinas capazes de economizar tempo, corremos o risco de nos tornar cada vez mais dependentes da velocidade. Ferramentas criadas para facilitar a comunicação podem reduzir o espaço da conversa; sistemas destinados a melhorar o cuidado podem nos levar a prestar mais atenção aos indicadores do que às pessoas. A tecnologia promete devolver tempo à humanidade, mas ainda precisamos decidir como utilizá-lo.

Essa decisão também é educacional. Uma universidade que mede seu sucesso apenas pela empregabilidade, pela produtividade ou pela incorporação de novas tecnologias corre o risco de reduzir a educação à preparação para o mercado. O mercado é importante, mas não esgota a finalidade da universidade. A educação superior também deve preparar pessoas para participar da vida pública, conviver com diferenças, avaliar conflitos de valores e compreender as consequências sociais das transformações que ajudam a produzir.

Talvez essa seja uma das maiores mudanças provocadas pela inteligência artificial: ela nos obriga a separar aquilo que é simplesmente competência técnica daquilo que exige discernimento humano.

Uma máquina pode auxiliar na construção de um diagnóstico, mas alguém precisa responder pelas consequências daquele diagnóstico. Um algoritmo pode identificar padrões, mas alguém precisa compreender o contexto. Um sistema pode recomendar uma decisão, mas alguém precisa avaliar se ela é adequada, justa e responsável.

A universidade não precisa disputar com a inteligência artificial o território em que as máquinas são mais eficientes. Precisa ocupar com mais clareza aquele em que a formação humana é indispensável: o território das escolhas, dos valores, da responsabilidade e do sentido.

Essa mudança não significa abandonar a universidade que conhecemos, mas ampliar sua missão. Conhecimento técnico continuará sendo indispensável. A diferença é que ele precisará estar acompanhado de capacidade crítica para compreender seus limites e suas consequências.

A inteligência artificial ampliará cada vez mais nossa capacidade de fazer. À universidade caberá uma tarefa mais complexa: formar pessoas capazes de compreender o que estão fazendo, avaliar por que estão fazendo e reconhecer quem será afetado por suas decisões. Talvez seja esse o verdadeiro desafio da educação superior na era da inteligência artificial: não competir com máquinas que sabem cada vez mais, mas formar seres humanos capazes de usar o conhecimento com discernimento, exercer poder com responsabilidade e incorporar a tecnologia sem perder de vista as pessoas.

Palmarí H. de Lucena