Quando a história volta a ser uma arma

Quando a história volta a ser uma arma

A América do Sul sempre pareceu desafiar uma das tragédias recorrentes da história moderna. Enquanto Europa, Oriente Médio e partes da Ásia e da África foram marcados por guerras entre Estados, o subcontinente transformou antigas rivalidades em uma convivência relativamente estável. Essa paz nunca foi perfeita, mas tornou-se suficientemente duradoura para que sucessivas gerações passassem a considerá-la quase natural.

Talvez esse tenha sido seu maior triunfo — e também sua maior fragilidade.

A paz deixa de ser percebida como uma conquista quando passa a ser vista como um estado permanente. Esquece-se que ela depende de escolhas políticas, de memória histórica e da disposição de reconhecer que nenhum país constrói seu futuro reabrindo as feridas do passado.

Nos últimos anos, porém, esse equilíbrio começou a dar sinais de desgaste. O ressurgimento de discursos nacionalistas, a instrumentalização da história e a crescente polarização ideológica recolocaram antigas rivalidades no centro do debate público. Guerras do século XIX e disputas territoriais voltaram a ser evocadas menos como objeto de reflexão histórica e mais como instrumentos de mobilização política.

A história deixou de explicar o presente para servir de munição nas disputas do presente.

Esse fenômeno não é exclusivo da América do Sul. Em diversas partes do mundo, governos e movimentos políticos recorrem ao passado para fortalecer identidades nacionais e construir adversários externos. O problema é que essa lógica encontra terreno fértil justamente em uma região cuja estabilidade foi construída pela capacidade de relativizar antagonismos históricos em favor da cooperação.

A Guerra do Paraguai ilustra esse risco. Mais de um século e meio após seu término, continua sendo objeto de intenso debate historiográfico. Isso é saudável: a história avança por meio da revisão crítica das evidências. O problema surge quando o revisionismo abandona o rigor acadêmico para transformar-se em instrumento político. Narrativas simplificadas, que reduzem processos complexos a heróis e vilões, alimentam ressentimentos em vez de ampliar a compreensão do passado.

Declarações recentes envolvendo o presidente argentino Javier Milei sobre o Brasil e comentários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra do Paraguai demonstram como episódios históricos permanecem sensíveis na memória regional. Independentemente do mérito de cada manifestação, o efeito é semelhante: reintroduzem controvérsias históricas em um ambiente já marcado pela polarização.

Seria um erro atribuir esse processo apenas às disputas políticas domésticas. Também seria um erro ignorar o contexto internacional.

A América do Sul jamais esteve à margem das grandes disputas geopolíticas. Desde a Doutrina Monroe, em 1823, os Estados Unidos passaram a considerar o hemisfério ocidental parte central de seus interesses estratégicos. Ao longo do século XX, especialmente durante a Guerra Fria, essa visão sustentou diferentes formas de influência política, econômica e diplomática na região.

Hoje, o cenário mudou, mas a lógica da competição permanece. A ascensão da China como potência econômica transformou a América do Sul em um espaço estratégico para a disputa por influência global. O continente concentra recursos essenciais para a economia do século XXI — lítio, cobre, petróleo, biodiversidade, água doce e enorme capacidade agrícola — ao mesmo tempo em que recebeu investimentos chineses em infraestrutura, energia, mineração e tecnologia.

Para muitos analistas, essa realidade levou Washington a renovar sua atenção sobre a região, agora sob a lógica da competição estratégica com Pequim. Não se trata de uma repetição da Guerra Fria, mas de uma disputa por cadeias produtivas, minerais críticos, tecnologia, infraestrutura e influência diplomática.

Nesse tipo de competição, raramente são os tanques que chegam primeiro.

O poder manifesta-se por investimentos, crédito, tecnologia, comunicação estratégica, pressão econômica e construção de narrativas. Isso não significa que os conflitos regionais sejam produzidos por atores externos. A polarização, as desigualdades e as fragilidades institucionais têm raízes domésticas. Entretanto, a história demonstra que interesses externos frequentemente encontram nas divisões internas oportunidades para ampliar sua influência.

Grandes potências dificilmente criam conflitos onde existe forte coesão política. Com mais frequência, exploram fissuras que já estão abertas.

É justamente por isso que o ressurgimento do nacionalismo merece atenção. Quando países vizinhos voltam a enxergar-se pelas lentes de guerras travadas há mais de um século, reduzem sua capacidade de enfrentar desafios comuns: desenvolvimento, infraestrutura, segurança alimentar, integração energética, proteção ambiental e inserção competitiva na economia global.

Uma América do Sul fragmentada tende a negociar com menos autonomia e maior vulnerabilidade diante da competição entre grandes potências. A integração regional não representa apenas um ideal político; constitui também uma estratégia de soberania.

A principal lição é simples. A história deve permanecer objeto de investigação rigorosa, não de mobilização política. O revisionismo responsável amplia o conhecimento; o revisionismo militante amplia ressentimentos.

Em um mundo cada vez mais multipolar, a América do Sul terá de decidir se deseja voltar a ser palco das disputas estratégicas de outros ou se pretende afirmar uma voz própria. O futuro da região dependerá menos das guerras do século XIX do que da capacidade de impedir que elas sejam transformadas nas guerras políticas do século XXI.

Palmarí H. de Lucena