Quando a direita se torna uma ameaça à soberania

Quando a direita se torna uma ameaça à soberania

Soberania não é um hino; é uma arquitetura.
Constrói-se tijolo a tijolo — com instituições sólidas, um Judiciário independente, uma imprensa livre e uma diplomacia capaz de dialogar com o mundo sem subserviência nem arrogância. A nova direita brasileira — barulhenta, ressentida e ideologicamente dependente — confundiu patriotismo com hostilidade, e nacionalismo com rendição.

Em seu discurso, a bandeira é sagrada, o hino é uma arma e o dissenso é traição. Mas por trás do teatro verde e amarelo há um paradoxo inquietante: quanto mais a direita populista proclama defender o Brasil, mais enfraquece os próprios alicerces da soberania nacional.

Um país que desacredita seus tribunais, ridiculariza seus cientistas e desautoriza seus diplomatas não pode se apresentar como igual na arena internacional. Quando um governo transforma suas instituições em alvos de escárnio ou vingança, destrói a confiança que sustenta tanto a democracia quanto a diplomacia. A verdadeira soberania começa em casa — e depende de uma sociedade que acredita na legitimidade de suas próprias leis.

A história recente do Brasil oferece um alerta. Durante o regime militar iniciado em 1964, a retórica da “defesa nacional” serviu para justificar repressão, censura e uma política externa submissa a Washington. A independência foi trocada por alinhamento; a “ordem” tornou-se pretexto para o silêncio. O renascimento da direita radical carrega hoje os mesmos ecos — só que travestidos de populismo digital, importado de fora e embalado em patriotismo de ocasião.

Confundir barulho com força é não compreender o poder.
A atual onda conservadora transforma a política em cruzada moral, enquanto esvazia o Estado e o priva de direção. Em nome da soberania, privatiza setores estratégicos, enfraquece a proteção ambiental e isola o país de instituições multilaterais que, por décadas, ampliaram sua voz no mundo.

O que resta de soberania quando a política externa de uma nação passa a ser extensão ideológica de outro país? Quando patriotismo se mede pela hostilidade e lealdade se confunde com obediência? A verdadeira soberania é a capacidade de dizer “não” — com calma, confiança e dignidade —, não a compulsão de gritar mais alto do que todos os outros.

A tradição diplomática brasileira sempre foi marcada pela moderação e pela inteligência. Das negociações sobre a Amazônia ao papel nos fóruns de comércio e clima, o país prosperou quando soube equilibrar independência e engajamento. Sua credibilidade no exterior sempre refletiu o equilíbrio interno. Quando essa harmonia se rompe — quando o Executivo desafia o Judiciário ou o Legislativo transforma a lei em revanche — o Brasil perde a autoridade moral que um dia o fez respeitado no Sul Global.

O desafio agora não é recuperar a retórica do nacionalismo, mas restaurar o conteúdo da soberania. Isso exige investimento em ciência, defesa das normas democráticas, proteção dos recursos naturais e uma política externa guiada por princípios — não por paixões.

Um país dividido não negocia em pé.
E um governo que confunde espetáculo com Estado acabará sempre de joelhos.

Porque, no fim, soberania não é uma bandeira para agitar — é uma responsabilidade a ser sustentada.

Por Palmarí H. de Lucena