Enquanto sirenes de alerta antiaéreo ecoavam nas madrugadas de Israel, uma delegação brasileira composta por prefeitos, vice-prefeitos, secretários e representantes estaduais buscava abrigo em bunkers improvisados. Estavam lá a convite da Expo Muni 2025, um evento voltado à inovação em gestão pública e cidades inteligentes. O contraste entre o ideal de modernidade urbana e a realidade de um país em guerra não poderia ser mais evidente — ou mais desconfortável.
Não se questiona aqui a importância da cooperação internacional. A troca de experiências sobre segurança comunitária, agricultura de precisão ou tecnologia urbana é bem-vinda. O que se discute é o timing e o juízo político que levaram dezenas de gestores brasileiros a cruzar o Atlântico rumo a uma zona de conflito ativo, em pleno agravamento da guerra em Gaza e dos confrontos entre colonos e palestinos na Cisjordânia.
Os relatos não deixam dúvidas: abrigos acionados, voos cancelados, espaço aéreo fechado, tensão nos bastidores. Em Haifa, Rishon LeZion e Kfar Saba, os brasileiros viram de perto o que significa viver sob ameaça constante. Testemunharam, não por escolha, os limites da resiliência que tanto buscaram compreender em reuniões técnicas.
A pergunta que fica é: era necessário expor representantes públicos a esse risco em nome de agendas que poderiam ser adiadas ou tratadas virtualmente? A presença em território hostil, ainda que institucionalmente amparada, beira a imprudência — sobretudo quando guiada mais por vaidade política do que por planejamento estratégico.
Mais preocupante ainda é que não se sabe ao certo se a viagem foi custeada integralmente pelo governo israelense ou se o contribuinte brasileiro também arcou com os custos da perigosa e possivelmente pouco frutífera missão. Se houve recursos públicos envolvidos, caberia explicações detalhadas — não apenas sobre a finalidade, mas também sobre os riscos assumidos e os resultados efetivos da empreitada.
Além disso, a visita não é neutra. Em um contexto de profunda assimetria de forças e sofrimento civil, a simples presença de autoridades brasileiras em eventos promovidos pelo governo israelense pode ser interpretada como tomada de posição. Onde estão os convites às cidades palestinas? Onde está o equilíbrio na diplomacia municipal?
Se o objetivo era projetar inovação e resiliência, o resultado foi o oposto: um retrato da vulnerabilidade da política externa improvisada, onde o símbolo fala mais alto que a substância. E o símbolo, neste caso, é o de uma comitiva encurralada em bunkers enquanto o mundo assistia ao desdobramento de mais uma tragédia no Oriente Médio.
Não se constrói desenvolvimento nem se fortalece democracia sob o som das sirenes. A responsabilidade pública exige, além de iniciativa, discernimento, sensibilidade e, sobretudo, transparência sobre quem paga a conta.
Por Palmari H. de Lucena