Quando a Democracia se Enfraquece por Dentro

Imagem criada por IA
Quando a Democracia se Enfraquece por Dentro


O trumpismo, à semelhança do macarthismo, transforma o medo em arma e a desconfiança em método — mas os riscos agora são maiores e mais duradouros.

A democracia americana não está imune a retrocessos — e nunca esteve. Dois episódios separados por mais de setenta anos provam que ameaças internas podem ser tão ou mais perigosas do que adversários externos. O macarthismo nos anos 1950 e o trumpismo de hoje compartilham uma lógica inquietante: a instrumentalização do medo para corroer a confiança pública e atacar instituições fundamentais.

Joseph McCarthy, senador republicano, prosperou ao acusar opositores de serem agentes soviéticos, mesmo sem provas. Seu método era simples e devastador: suspeita sem base, listas secretas, inquéritos parlamentares como palco e o uso político do medo. O resultado foi um ambiente opressivo, onde o exercício da liberdade se confundia com traição.

Donald Trump, décadas depois, recupera essa fórmula e adapta-a aos tempos digitais. Substitui o comunismo por imigrantes, jornalistas, juízes e servidores públicos. Lança dúvidas sobre a legitimidade do sistema eleitoral. Mobiliza o ressentimento como força política e transforma o confronto em identidade de grupo. O que antes era exceção virou rotina — e o que era denúncia sem provas tornou-se bandeira política.

A diferença crucial entre os dois momentos está na resposta institucional. McCarthy foi contido. Após atacar o Exército, perdeu apoio de seus pares e foi censurado pelo Senado. O sistema, com todas as suas falhas, reagiu. Já Trump não apenas sobreviveu a dois impeachments como consolidou sua posição como líder inconteste de seu partido. Seu discurso foi normalizado. Sua retórica, replicada. E sua influência, exportada para outros contextos políticos ao redor do mundo.

O trumpismo persiste porque atua num terreno mais fértil: o da desinformação em tempo real. As redes sociais permitem que teorias infundadas se espalhem antes mesmo de serem verificadas. O debate público se fragmenta em bolhas. A divergência de opiniões dá lugar ao antagonismo entre mundos paralelos. Em vez de buscar convergência, a política contemporânea se alimenta da ruptura.

Não se trata de uma ameaça exclusiva à democracia americana. Trata-se de um alerta universal. A erosão democrática raramente acontece por golpes súbitos. Quase sempre se dá por dentro, silenciosa, quando normas são relativizadas e líderes testam os limites com pequenos excessos — e descobrem que não há consequências.

Comparar McCarthy e Trump não é exercício de nostalgia, mas de lucidez. O primeiro foi derrotado por instituições que decidiram se defender. O segundo ainda desafia essas instituições e, até agora, tem sido bem-sucedido. Em 1954, apenas 34% dos americanos apoiavam McCarthy. Hoje, Donald Trump mantém mais de 80% de aprovação entre os republicanos e ainda influencia decisivamente o cenário eleitoral, mesmo após um ataque ao coração da democracia americana — o Capitólio.

As democracias sobrevivem quando contam com lideranças dispostas a colocar o bem público acima do cálculo político. Quando a imprensa cumpre seu papel sem temor. E quando a sociedade civil entende que o voto não é um cheque em branco, mas um pacto que exige vigilância e responsabilidade.

O desafio, hoje, é justamente esse: reagir enquanto ainda há tempo. O passado ensinou que o populismo autoritário pode ser vencido. Mas também ensinou que, quando se hesita demais, o preço a pagar é mais alto do que se imagina.

Por Palmarí H. de Lucena