Há filmes que envelhecem como documento histórico. Outros sobrevivem como advertência. A Tristeza e a Piedade (Le Chagrin et la Pitié), dirigido por Marcel Ophuls no fim dos anos 1960, pertence à segunda categoria. Embora trate da França submetida ao domínio nazista, sua força está menos na reconstituição do passado e mais na capacidade de revelar mecanismos permanentes do poder autoritário — especialmente aqueles que prosperam sem alarde.
O documentário desmonta uma narrativa confortável cultivada no pós-guerra francês: a de que o país teria resistido de forma quase unânime à ocupação alemã. Ao contrário, o que emerge é um retrato mais incômodo. A engrenagem da opressão não funcionou apenas pela violência externa, mas pela adaptação interna. A maioria não marchou com os invasores, mas também não enfrentou a nova ordem. Preferiu ajustar-se.
Esse talvez seja o aspecto mais perturbador da obra: a constatação de que regimes autoritários dependem menos de fanáticos e mais de resignados.
Antes da submissão política, há sempre um terreno social preparado. Ressentimentos antigos, preconceitos persistentes e medos coletivos formam a matéria-prima ideal para líderes que sabem explorar frustrações. Na França ocupada, isso se traduziu na reativação de hostilidades antigas, transformadas em linguagem de governo. O inimigo precisava ser identificado, nomeado e responsabilizado.
Em qualquer época, o roteiro se repete. Nenhum projeto autoritário nasce do nada; ele se apoia em fissuras já existentes e lhes oferece direção política.
Também chama atenção a ilusão da neutralidade. Muitos preferiram acreditar que a prudência consistia em não se envolver. Continuar trabalhando, preservar a família, evitar riscos — tudo parecia razoável diante do medo. Mas a omissão coletiva tem consequências concretas. Quando a injustiça se torna rotina, a passividade deixa de ser apenas escolha privada e passa a ser elemento de sustentação pública.
Não é necessário aderir ao abuso para fortalecê-lo. Basta aceitá-lo como paisagem.
Outro ensinamento decisivo está no papel das instituições. Nenhum regime de exceção se consolida apenas pela força bruta. É preciso cooptação. Estruturas do Estado, criadas para garantir ordem e proteção, podem ser convertidas em instrumentos de perseguição quando abandonam sua função republicana. Polícia, Judiciário, burocracia e aparato administrativo deixam de servir ao cidadão e passam a servir ao projeto de poder.
Essa transformação raramente acontece de forma súbita. Ela avança sob justificativas legais, discursos de emergência e promessas de estabilidade.
O filme também ajuda a compreender a sedução do extremismo. Nem todos os que aderem ao autoritarismo o fazem por convicção doutrinária. Há quem seja movido por ressentimento, frustração social, desejo de pertencimento ou simples fascínio pela ruptura. O radicalismo oferece identidade, clareza e a sensação de participar de algo grandioso — ainda que destrutivo.
Essa dimensão emocional costuma ser subestimada por quem analisa a política apenas pela lógica racional.
Mas há uma dimensão esperançosa na narrativa de Ophuls: a resistência nasce quase sempre da imperfeição. Diferentes correntes políticas, muitas vezes adversárias históricas, precisaram atuar juntas para enfrentar um inimigo maior. A defesa da liberdade exigiu convivência entre divergentes, concessões incômodas e o adiamento de disputas legítimas.
Democracias ameaçadas não se salvam com purismo moral, mas com capacidade de convergência.
Resta, por fim, a questão mais delicada: como lidar com os cúmplices quando o ciclo termina? A punição absoluta nem sempre é possível; o esquecimento completo quase nunca é saudável. Entre justiça e convivência, permanece o desafio da memória. Lembrar não como ritual de culpa, mas como mecanismo de vigilância.
Sociedades não colapsam apenas por golpes espetaculares. Muitas vezes, desmoronam pela naturalização progressiva do inadmissível.
É por isso que certos filmes deixam de ser apenas cinema. Tornam-se espelho. E, às vezes, aviso.
Por Palmarí H. de Lucena