Há uma transformação silenciosa acontecendo na relação dos brasileiros com o telefone. Durante décadas, atender uma chamada significava, na maioria das vezes, atender alguém conhecido ou, pelo menos, alguém cuja identidade parecia fácil de reconhecer. Hoje, especialmente para os mais velhos, atender pode significar abrir a porta para um desconhecido que sabe seu nome, conhece informações sobre sua vida e consegue construir a aparência de uma relação legítima.
É justamente aí que a confiança pode se transformar em risco. Os golpes contra idosos são frequentemente tratados como um problema de segurança digital, e de fato existe uma dimensão tecnológica importante. Os criminosos usam aplicativos de mensagens, dados pessoais, falsas identidades e técnicas de persuasão para criar situações convincentes. Mas o que exploram vai além da tecnologia. Exploram uma característica simples da vida em sociedade: a tendência de acreditar em alguém que se apresenta como legítimo.
Durante muito tempo, essa confiança fez parte da rotina. O funcionário do banco era alguém que trabalhava no banco. O telefonema de um parente vinha de um número conhecido. Uma autoridade pública falava a partir de uma instituição identificável. A internet mudou esse cenário porque tornou muito mais fácil reproduzir sinais de identidade. Uma fotografia, uma voz, um número de telefone ou algumas informações pessoais podem ser suficientes para criar uma representação convincente de alguém que, na realidade, não está do outro lado da comunicação.
É nesse ambiente que os idosos podem ficar mais expostos. Não porque sejam necessariamente menos capazes de compreender a tecnologia, mas porque muitos dos códigos sociais nos quais aprenderam a confiar foram formados em uma época em que a identidade era mais difícil de falsificar. Aquilo que antes exigia presença física ou algum documento agora pode aparecer na tela de um celular.
Os números ajudam a mostrar a dimensão do problema. Dados analisados pelo Tribunal de Contas da União indicam que os registros de golpes digitais relacionados a violações patrimoniais contra pessoas idosas passaram de 21.001, em 2021, para 52.123, em 2024. O crescimento é expressivo, mas a estatística não mostra o que acontece depois que o dinheiro desaparece.
Uma pessoa que passou décadas atendendo ao telefone sem preocupação pode começar a evitar chamadas desconhecidas. Alguém que sempre administrou sua própria vida financeira pode passar a pedir ajuda para decisões simples. Há ainda quem esconda o ocorrido por vergonha ou passe a duvidar da própria capacidade de tomar decisões. Nesse momento, o golpe deixa de ser apenas financeiro e começa a atingir a autonomia.
Essa consequência merece atenção. O envelhecimento ainda é associado, muitas vezes de forma equivocada, à perda gradual da capacidade de decidir. Quando um idoso sofre uma fraude, a família pode reagir tentando assumir o controle de suas finanças. A intenção costuma ser proteger, mas existe o risco de que a proteção se transforme em restrição de autonomia.
O caminho deveria ser outro. Em vez de perguntar apenas por que o idoso acreditou no fraudador, precisamos perguntar por que uma fraude tão convincente conseguiu chegar até ele. Essa mudança de perspectiva tira o foco da culpa individual e coloca em discussão a responsabilidade de bancos, empresas de tecnologia, instituições públicas, famílias e usuários.
Cada um tem uma parte nessa proteção. Bancos podem aperfeiçoar mecanismos para identificar transações suspeitas. Empresas de tecnologia podem dificultar a criação de identidades falsas. O poder público pode tornar mais simples a denúncia e a investigação. As famílias podem criar hábitos de confirmação para situações financeiras inesperadas. E os usuários podem aprender a interromper uma operação quando algo parecer fora do normal.
Nenhuma dessas medidas elimina completamente o risco. A segurança funciona melhor quando existem várias barreiras. Se uma delas falhar, outra ainda poderá impedir que uma decisão precipitada se transforme em prejuízo.
A linguagem usada nos golpes também merece atenção. Quase sempre há urgência. Uma conta será bloqueada, uma transferência precisa ser cancelada, um parente está em dificuldade ou uma irregularidade precisa ser resolvida naquele momento. A urgência reduz o tempo disponível para pensar, consultar alguém e confirmar a informação.
Por isso, recuperar alguns minutos pode ser uma forma simples de prevenção. Desligar o telefone, pedir tempo, procurar a instituição por um canal oficial ou confirmar a identidade de um familiar por outro meio não significa exagerar na desconfiança. Significa reconhecer que, em um mundo no qual a aparência de autenticidade pode ser facilmente reproduzida, verificar passou a fazer parte da própria segurança.
Também é preciso reconhecer que há um limite para aquilo que se pode exigir do indivíduo. Não é razoável esperar que cada aposentado se torne especialista em segurança digital para proteger o dinheiro que acumulou durante décadas. Tampouco basta distribuir cartilhas com recomendações genéricas. Os criminosos aprimoram seus métodos porque existe um incentivo econômico para isso, e a prevenção precisa acompanhar essa mudança.
A discussão sobre fraudes contra idosos é, portanto, também uma discussão sobre a sociedade digital que estamos construindo. Se cada interação exigir uma investigação, a vida cotidiana ficará mais difícil e a confiança perderá espaço. Se, ao contrário, aceitarmos como verdade toda mensagem, ligação ou solicitação que pareça legítima, estaremos oferecendo novas oportunidades para quem pretende explorar a boa-fé alheia.
O desafio está em encontrar um equilíbrio. A confiança é indispensável à vida em sociedade, mas precisa ser acompanhada por mecanismos que dificultem sua exploração criminosa. Isso significa distribuir responsabilidades entre cidadãos, famílias, empresas e instituições públicas, em vez de esperar que a vítima seja a única linha de defesa.
Para os idosos, essa questão é ainda mais delicada. Proteger não deveria significar afastá-los da tecnologia nem transformar a velhice em uma permanente experiência de suspeita. O objetivo deveria ser permitir que continuem usando o telefone, realizando operações bancárias, conversando com familiares e participando da vida social com a mesma autonomia que conquistaram ao longo dos anos.
O telefone continuará tocando e as tecnologias continuarão mudando. A sociedade terá de acompanhar essa transformação sem transformar a experiência acumulada de uma geração em uma nova forma de vulnerabilidade. Combinar informação, segurança tecnológica, responsabilidade institucional e apoio familiar pode permitir que os idosos continuem participando da vida digital com autonomia, sem que cada contato inesperado precise ser recebido como uma ameaça.
Palmarí H. de Lucena