Quando a cidade falha com os seus mortos

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Quando a cidade falha com os seus mortos

Houve um tempo em que o funeral não era apenas uma despedida familiar, mas um acontecimento público no melhor sentido da palavra: um ritual coletivo de reconhecimento da vida que se encerrava e da história que permanecia. Caminhava-se atrás do caixão como quem acompanha um capítulo final da cidade. Sinos marcavam a hora, vizinhos baixavam a voz, as janelas se abriam em respeito. A morte impunha silêncio porque ainda havia dignidade.

Essa lembrança retorna sempre que passo pelo cemitério onde foi sepultado meu avô. O mundo, naquela tarde distante, me pareceu menor do que a ausência que se abria diante de mim. O som da pá batendo na terra era mais do que um ruído — era um relógio cruel, decretando o fim da infância e a descoberta do irreversível. Não compreendi a morte. Mas aprendi o silêncio.

Décadas depois, o que encontro não é apenas a erosão do mármore e a ferrugem das grades — é o envelhecimento moral da cidade. O campo-santo deteriorou-se como se deterioram os lugares sem guardiões. Onde havia zelo, há abandono. Onde havia oração, há indiferença. Túmulos quebrados não são apenas patrimônio destruído: são biografias violadas. Não se trata apenas de vandalismo, mas de um sintoma mais profundo — o de uma cidade que começa a esquecer quem é.

O contraste torna-se ainda mais evidente quando se presencia um enterro em um cemitério moderno. Tudo é limpo, funcional, organizado. Nada de mausoléus, nada de lápides — apenas placas discretas no chão com nomes que sugerem vida reduzida à condição técnica de registro. Ao redor da cova rasa, um pequeno grupo de parentes. Um mecanismo impessoal desce a urna ao solo. A grama cobre o gesto em segundos. Lê-se um discurso padrão. Reza-se o Pai-Nosso. Em minutos, tudo termina. Nenhuma terra nas mãos. Nenhuma lágrima pública. Nenhum peso no chão.

O resultado é um silêncio que não é luto, mas vácuo. Um silêncio limpo demais para carregar memória. Quebram-no apenas as gralhas nos galhos mais altos, como se fossem as únicas a protestar contra a rapidez com que a vida passou a ser devolvida à terra.

Nesse contexto, o recadastramento das sepulturas no Cemitério do Senhor da Boa Sentença expôs o que já se sussurrava havia anos: o abandono não é episódico; é estrutural. O nome apagado da lápide não apaga apenas uma identidade — sinaliza um modo de gerir que relativiza até a memória dos mortos. O que deveria ser sagrado vira mercadoria. O que deveria ser inviolável se torna estatística. O luto é empurrado para a burocracia. A morte, para o descaso.

Convém dizer sem eufemismos: quando uma cidade falha com seus mortos, ela falha consigo mesma. O cemitério é o arquivo mais honesto de um povo. Ali repousam os que não disputam poder nem reescrevem a própria história. Ali se guardam as verdades que a política frequentemente tenta maquiar. Por isso, o abandono dos cemitérios é mais do que negligência — é um problema civilizatório.

Não se trata apenas de zeladoria urbana, mas de alma pública. A cidade que trata seus mortos como restos termina tratando seus vivos como descartáveis. A degradação das sepulturas revela a erosão dos vínculos, o enfraquecimento do pertencimento, o desleixo com a própria narrativa coletiva.

Cuidar de um cemitério é uma política cultural silenciosa — e central. É afirmar que ninguém começa do zero, que toda cidade é herdeira antes de ser autora de si mesma. Restaurar túmulos não é gasto: é investimento simbólico. É dizer aos que passaram que não foram inúteis. E aos que chegam, que não caminham sobre o vazio.

Ainda é possível corrigir o curso. Mas isso exige assumir que cada sepultura restaurada não é apenas obra pública — é um gesto político no melhor sentido do termo: um pacto com o passado e uma promessa ao futuro.

Porque quando uma cidade erra com seus mortos, não enterra apenas ossos.
Enterra a própria dignidade.

Por Palmarí H. de Lucena