No Brasil, governar virou sinônimo de negociar apoio. Em vez de projeto, troca. Em vez de planejamento, acomodação. A corrupção deixou de ser exceção e passou a método. E a incompetência, antes falha administrativa, tornou-se instrumento político.
O roteiro é conhecido. No Mensalão, dinheiro comprou votos. No Petrolão, contratos compraram partidos. No Orçamento Secreto, o próprio orçamento passou a comprar lealdade. No INSS, a miséria virou mercadoria. Mudam as formas; persiste a lógica: governar sem governar.
A pandemia de Covid-19 levou esse sistema ao limite da brutalidade. Onde era exigida ciência, houve vaidade. Onde urgia método, houve improviso. Compras sem controle, decisões erráticas, desprezo técnico e disputas institucionais ampliaram uma tragédia que já seria grande. O vírus não escolheu ideologia. Mas o Estado escolheu errar.
Diante de cada crise, o país reage da forma mais confortável: elege um vilão. Um partido, um líder, uma sigla. É o álibi nacional. Enquanto se queima um personagem, preservam-se os mecanismos. Trocam-se os rostos, mantêm-se os vícios. A corrupção brasileira não tem dono. Tem método.
Esse método não destrói apenas cofres públicos — destrói cidades.
Em João Pessoa, esse cenário ganha contornos visíveis. A urbanização avança sem freio, o concreto suprime o verde e o planejamento vira acessório de campanha. Dois símbolos ambientais sintetizam o abandono: a Falésia do Cabo Branco e a Mata do Altiplano.
A falésia sofre com erosão incentivada por obras mal concebidas, drenagens improvisadas e licenças apressadas. A Mata do Altiplano perde território para ocupações, omissão fiscalizatória e falta de plano de manejo. Enquanto políticos discursam em conferências internacionais sobre sustentabilidade, ignoram a floresta que têm sob seus próprios pés.
O caso da Estação Ciência escancara a mesma lógica. Projetada como centro de ciência e educação ambiental, tornou-se ruína administrativa. Não faltaram recursos; faltaram gestão, continuidade e respeito à função pública do espaço. Onde deveria haver futuro, restou abandono.
Urbanizar sem método é semear desastre. Cidades sem verde aquecem, alagam e adoecem. Obras sem projeto não duram. Serviços sem gestão não funcionam. Não é desenvolvimento — é improviso oficializado.
Mas há saída.
Não com slogans. Com estrutura.
João Pessoa precisa de blindagem legal para seus santuários ambientais, plano de manejo real para a Mata, engenharia costeira séria para a falésia e requalificação urgente da Estação Ciência como centro vivo de educação e inovação.
É preciso uma moratória de licenças em áreas sensíveis, transparência integral nas obras, conselhos técnicos independentes, fiscalização com autonomia e um plano diretor que respeite limites naturais.
A corrupção não começa no cofre. Começa quando a técnica perde lugar para o favor. Quando o interesse público é substituído pela foto. Quando governar vira administrar narrativas.
O Brasil que compra apoio não constrói futuro.
A cidade que não protege sua natureza não protege seu povo.
A corrupção não tem dono.
Mas tem consequência.
Por Palmarí H. de Lucena