Quando a banda passa, fica o som

Quando a banda passa, fica o som

Não me lembro exatamente do ano. Na infância, os anos não tinham ainda a obrigação de se distinguir uns dos outros. Bastava que fosse sete de setembro. Havia um palanque, autoridades civis, militares e eclesiásticas, uma multidão e aquele sentimento, difícil de explicar hoje, de que alguma coisa importante estava para acontecer. O calor fazia seu trabalho sobre os rostos. Os uniformes brilhavam. Os instrumentos de metal devolviam a luz. E então vinha a banda.

Antes mesmo de vê-la, era possível ouvi-la. Os acordes de um dobrado avançavam pelas ruas e pareciam modificar a própria arquitetura da cidade. A rua Duque de Caxias, estreita e familiar, transformava-se por alguns minutos em uma espécie de corredor acústico. A música vinha de longe, aproximava-se, ocupava o espaço e, depois de passar, continuava por algum tempo dentro dos ouvidos.

A criança que eu era não conhecia a história das bandas, não sabia distinguir um instrumento de outro e tampouco imaginava que aquele som pudesse um dia se transformar em memória. Sabia apenas que havia alguma coisa extraordinária em ver tantos homens caminhando juntos, tocando juntos, obedecendo ao mesmo compasso.

A banda passou, e nós ficamos olhando.

Talvez toda memória comece assim: não com a compreensão de um acontecimento, mas com uma imagem que sobrevive àquilo que a produziu.

Foi somente muitos anos depois que alguns nomes começaram a se juntar àquelas imagens. Entre eles, Joaquim Pereira, o Quincas. Sua trajetória, segundo as lembranças que chegaram até nós, havia começado longe das salas de música, no ofício de carpinteiro, em Caiçara. A régua de prumo, instrumento de uma profissão, acabaria convivendo com a batuta de maestro. Há alguma coisa de literário nessa passagem, embora a vida raramente se dê ao trabalho de parecer literária enquanto acontece.

Quincas pertencia a uma geração para a qual a banda significava mais do que um conjunto de instrumentos. Era lugar de aprendizado, disciplina e convivência. Havia os ensaios, a repetição dos trechos, a correção das notas, a paciência necessária para aprender e a atenção indispensável para ouvir o companheiro. Uma banda é feita dessa escuta mútua. Cada instrumento possui sua própria voz, mas nenhuma delas existe plenamente sem as outras. Talvez esse seja um dos ensinamentos mais profundos que a música oferece: ninguém toca sozinho.

As bandas municipais e as filarmônicas conheciam bem essa espécie de pedagogia. Em muitas cidades, eram espaços de iniciação musical antes mesmo que existissem escolas de música com essa denominação. O menino chegava atraído pelo brilho de um instrumento ou pelo som da marcha e, aos poucos, descobria que havia uma técnica por trás daquele encantamento. Aprendia a soprar, a contar, a esperar, a repetir. Descobria que o som que produzia precisava encontrar os outros sons. Sem perceber, aprendia também uma forma de convivência.

Muitos desses músicos vinham de profissões que nada tinham a ver com a música. Carpinteiros, açougueiros, balaieiros, caiadores, mecânicos, comerciantes, trabalhadores rurais. Depois de um dia de trabalho, encontravam nos ensaios outra maneira de participar da vida da comunidade. Alguns aprendiam com os pais; outros, com amigos ou professores; muitos simplesmente porque havia uma banda em sua cidade e alguém disposto a ensinar.

Essa mistura talvez explique parte da força das filarmônicas. Elas não pertenciam exclusivamente aos músicos. Pertenciam também às cidades.

Estavam nas festas religiosas, nas comemorações cívicas, nos aniversários, nas procissões, nas inaugurações e nos acontecimentos comunitários. Tocavam nas praças, percorriam as ruas e reuniam pessoas que talvez não tivessem outra oportunidade de compartilhar uma experiência musical. A música saía do lugar onde normalmente se espera encontrá-la e entrava na vida cotidiana.

A banda chegava e, durante algum tempo, a cidade parecia saber escutar.

Foi nesse universo que surgiu Os Flagelados, composição associada ao nome de Joaquim Pereira. Quando ele foi promovido a tenente e nomeado para dirigir a banda militar da Academia Militar das Agulhas Negras, partiu para o Sul levando consigo, na bagagem de nordestino, aquele dobrado.

Aqui, como acontece com tantas lembranças antigas, talvez seja difícil separar completamente o que vimos do que nos foi contado depois. A memória não trabalha como um arquivo. Ela mistura vozes, imagens, acontecimentos e impressões. O que permanece, muitas vezes, não é a precisão de cada detalhe, mas a verdade afetiva de uma cena.

A música, entretanto, não ficou presa ao itinerário de seu autor. Continuou a viagem. Passou de músico para músico, de banda para banda, de cidade em cidade. É uma das coisas curiosas da música: depois que deixa o compositor, começa a adquirir outras vidas. Um músico a aprende, outro a ensaia, um regente encontra seu andamento, uma banda a executa numa praça e alguém, muitos anos depois, escuta os primeiros compassos e associa aquela melodia a uma pessoa que já morreu.

A obra torna-se, pouco a pouco, uma propriedade involuntária da memória coletiva.

Anos depois, a banda Cinco de Agosto, da Prefeitura Municipal de João Pessoa, executava Os Flagelados sob a direção do Tenente Lucena. O passado não havia retornado — o passado nunca retorna. Mas a música produzia alguma coisa parecida com seu retorno: fazia uma geração ouvir a outra.

Talvez seja essa uma das funções mais discretas das bandas municipais e das filarmônicas. Elas conservam coisas que não cabem inteiramente nos arquivos. Uma partitura pode registrar as notas, mas não registra o calor da praça, a criança que acompanhava a banda pela rua, o músico que chegava ao ensaio depois de um dia de trabalho, o instrumento emprestado, a ansiedade antes da primeira apresentação ou o orgulho de uma família quando alguém aprendia a tocar.

A memória cultural de uma cidade é feita também dessas coisas menores. Menores apenas para quem não as viveu.

Há uma tendência compreensível de organizar a história em torno de personagens. Procuramos o maestro, o compositor, o músico mais conhecido. Registramos datas, fotografias e acontecimentos. Mas uma banda é uma instituição curiosamente resistente à ideia de protagonista. O regente conduz, mas não toca sozinho. A música existe porque há um conjunto.

Por isso, lembrar Joaquim Pereira é também lembrar uma geração inteira de músicos que encontrou nas bandas um espaço de aprendizado e expressão. Muitos não ficaram conhecidos. Alguns sobreviveram apenas na memória familiar, nas fotografias antigas, nos repertórios guardados e na lembrança de quem ainda consegue dizer: “Eu conheci aquele músico”.

É uma forma silenciosa de desaparecimento.

Primeiro desaparecem os músicos. Depois desaparecem aqueles que os conheceram. Em seguida, desaparecem as circunstâncias em que tocaram. Por fim, desaparece até a razão pela qual determinada música nos parece familiar.

Talvez por isso seja importante falar das bandas enquanto ainda existem pessoas capazes de lembrar seus sons.

As filarmônicas e bandas municipais não são apenas guardiãs de repertórios antigos. São lugares onde a memória pode continuar sendo produzida. Um instrumento colocado nas mãos de uma criança não representa somente a possibilidade de formar um músico. Pode representar a continuidade de uma tradição que, sem essa criança, terminaria naquele momento.

Há algo de comovente nessa continuidade, mas não é preciso transformá-la em solenidade. Uma banda é feita também de coisas concretas: ensaios, instrumentos que precisam de manutenção, partituras que se perdem, professores que insistem, jovens que chegam e outros que vão embora. A cultura sobrevive menos por discursos do que por essas pequenas persistências.

Talvez seja essa a razão de algumas cidades parecerem diferentes quando uma banda toca.

Não porque a música resolva os problemas da cidade. Não resolve. Mas porque, por alguns minutos, oferece outra maneira de ocupar o espaço público. As pessoas param. Conversam. Escutam. Crianças se aproximam. Os músicos atravessam a praça. E uma coisa que parecia pertencer ao passado volta a acontecer diante de todos.

Tenho a impressão de que foi assim que aprendi a lembrar das bandas.

Não através dos livros, mas através do som.

Um dobrado ouvido muitos anos atrás ainda pode devolver uma rua. A rua devolve a praça. A praça devolve a multidão. A multidão devolve os músicos. E, entre eles, reaparecem aqueles rostos que a memória não conseguiu apagar completamente.

É estranho pensar que uma música possa conservar pessoas melhor do que uma fotografia.

Talvez porque a fotografia nos mostre o rosto de quem passou, enquanto a música nos devolve alguma coisa do movimento.

Os músicos passam. As bandas mudam. Os uniformes envelhecem. As praças se transformam. As cidades esquecem algumas coisas e inventam outras. Mas um dobrado pode atravessar décadas com uma espécie de teimosia. Basta que alguém o toque novamente.

Então a infância, que parecia perdida, reaparece por alguns instantes.

Não volta inteira. Nunca volta.

Volta apenas como som.

E talvez seja isso que significa lembrar das bandas que passaram: descobrir que determinadas músicas não ficaram para trás. Elas estavam apenas esperando que alguém as tocasse outra vez.

A banda passou.

Mas o som ficou.

E enquanto houver uma criança aprendendo a soprar um instrumento, um músico chegando para o ensaio, uma banda atravessando uma praça e alguém disposto a parar para escutá-la, a memória não terá terminado.

Palmarí H. de Lucena