Primeiro vieram por um poema,
voz que rompeu o silêncio e o sistema,
verso firme, de livre expressão,
que afrontou a opressão e a mão.
Ninguém falou, ninguém se insurgiu,
pois não lhes atingia o que surgiu,
calaram-se ante o proceder,
sem perceber que haveria de os ver.
Depois vieram por um pensamento,
ideia pura, sem constrangimento,
que rompeu cercas de tirania,
e trouxe luz à noite vazia.
Poucos reagiram à ameaça sutil,
pois não lhes parecia algo febril,
mas o silêncio foi consentimento,
deixando o mal seguir seu intento.
Vieram também por nossas mulheres,
por suas vozes, lutas e papéis,
pelas causas que defendem e acalentam,
na busca firme que o tempo sustenta.
E o mundo permaneceu calado,
como se o perigo não fosse anunciado,
até que vieram por um juiz,
protetor da lei e do país.
Alvo das sanções e da opressão,
sujeito à cruel intervenção,
o silêncio das instituições,
fortalece graves contradições.
Hoje vêm por todos, sem exceção,
pelo direito, pela nação,
pela voz que hoje se cala e teme,
pelo futuro que o medo reprime.
Se não lutarmos contra a ameaça,
amanhã não haverá quem faça
defesa da liberdade plena,
nem esperança na luz serena.