Polyana, com Y

Polyana, com Y

A primeira vez que ouvi falar em Pollyanna foi num livro antigo, encadernado com fita adesiva e esperança. A menina loira e frágil jogava o “jogo do contente”, aquela brincadeira de achar algo bom em tudo — até no que doía. Pollyanna enxergava luz nas frestas, mesmo quando o dia era todo sombra.

Anos depois, conheci outra Polyana. Sem “ll”, mas com um “y” que parece seta apontando pro alto. Não vinha dos livros, mas das ruas, dos palcos improvisados, dos batuques de quintal. Trocou a fé cega da menina por um otimismo que caminha — com os pés no chão batido e o canto em riste. Essa Polyana também fala de esperança, mas não aquela que espera: a que vai.

Seu sotaque tem vento de maré e poeira de estrada. Sua voz vem densa, feita de barro e brilho, de dores que ela nunca nega e de festas que ela sabe provocar. Polyana não se engana com o mundo — e mesmo assim canta. Canta como quem carrega uma vela acesa na ventania. Como quem varre a calçada antes do desfile passar. Como quem acorda a cidade que dorme sob ruínas.

Mas quem a ouve com atenção, percebe um outro som ao fundo. Um sopro, um arranjo, uma afinação de silêncio e cumplicidade. É ali que entra Potyzinho Lucena — músico, parceiro, mentor, companheiro de travessia. Se Polyana é o corpo da canção, Potyzinho é sua espinha dorsal. A harmonia que sustenta o voo. A calma que embala o pulso. Juntos, eles constroem uma música que tem cheiro de casa e gosto de horizonte.

Enquanto a Pollyanna de Eleanor Porter achava consolo num par de muletas, Polyana Resende encontra beleza num tambor riscado, num verso suado, num palco de concreto. Onde a menina dizia “eu estou contente”, a mulher diz: “eu insisto”.

E talvez seja isso o que mais nos comove: o modo como Polyana — com “y” de intensidade — canta como quem deseja, como quem promete que amanhã pode ser melhor se hoje a gente resistir junto. Há em sua música um rumor de ternura, um gesto de mãos dadas com o mundo, e um rastro de esperança que não se curva. E se por trás de cada canção há o toque invisível de Potyzinho — afinando caminhos, soprando coragem, costurando silêncios — então tudo faz ainda mais sentido. Porque amor, quando é alicerce, vira ponte. E quando é ponte, leva a gente pra frente. Juntos, eles afinam a vida no tom do que virá. E o que virá, se depender desse dueto, será bonito. Porque tem fé, tem arte — e tem amor que não desafina.

Por Palmarí H. de Lucena