Piragibe, guardador do tempo

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Piragibe, guardador do tempo

Há pessoas que escrevem para se impor ao mundo.
Meu irmão Piragibe de Lucena escreveu a vida inteira para impedir que o mundo se perdesse.

Piragibe nunca teve pressa. Nem na vida, nem na palavra. Caminhava com passo curto, atento ao chão, como quem sabe que a memória não gosta de atropelos. Seu texto carregava esse ritmo: frases que não disputavam espaço, ideias que não se anunciavam aos gritos. Ele escrevia como quem escuta — e escutava como quem sabe que o tempo é finito.

Talvez por isso Tenente Lucena não seja um livro de exaltação, mas de cuidado. Ao escrever sobre nosso pai, João Emídio de Lucena, Piragibe recusou a estátua. Preferiu mantê-lo em movimento: andando, falando, insistindo, convivendo. O livro não congela uma figura; preserva um modo de existir. Ao fazê-lo, registra também uma geração inteira — homens que acreditavam que cultura popular não era ornamento, mas forma de estar no mundo.

Esse mesmo olhar, atento às zonas de sombra e de ambiguidade, apareceu quando Piragibe escreveu sobre os cangaceiros. Não os romantizou nem os julgou. Procurou compreendê-los como expressão extrema de um tempo duro, em que violência, honra e sobrevivência se misturavam na mesma paisagem humana do Nordeste — uma paisagem que ele conhecia mais pelo silêncio do que pelo estrondo.

Mas talvez o texto que melhor revele Piragibe seja sua oração, “Meu Senhor…”. Não é uma oração de respostas, mas de perguntas. Nela, Deus não surge como certeza confortável, e sim como interlocutor exigente. Piragibe fala da fé como fragilidade, da consciência como peso, da liberdade como risco. Questiona, hesita, confessa o medo de errar — e, sobretudo, recusa a ideia de um caminho pronto. Cada homem, escreve ele, deve inventar o seu.

Há algo de profundamente moderno nessa oração, e ao mesmo tempo antigo. Piragibe não pede milagres; pede lucidez. Não suplica proteção; pede responsabilidade. Sua fé não é a do dogma que tranquiliza, mas a da dúvida que obriga a caminhar. Mesmo quando fala da “cova grande”, metáfora dura do fim, não dramatiza a morte — reconhece apenas o limite humano diante do tempo.

Havia, nesse gesto, algo que sempre reconheci como profundamente fraterno. Piragibe escrevia para salvar vozes do desaparecimento. Não apenas a do pai, nem apenas as do passado coletivo, mas também a voz interior — aquela que se perde quando a vida vira repetição. Ele sabia que certas narrativas não pedem aplauso; pedem permanência.

Economista de formação, transitou com naturalidade entre números e narrativas. Mas nunca permitiu que o cálculo endurecesse o afeto. Seu texto manteve um equilíbrio raro: rigor sem frieza, emoção sem retórica. Não havia ali o impulso de convencer — apenas o desejo silencioso de não deixar esquecer.

Quem conviveu com Piragibe sabe: ele observava mais do que anunciava. Escutava mais do que concluía. Escrevia como viveu — sem estridência, mas com constância. Seus livros e textos não disputam o tempo da moda; pertencem a outro ritmo, mais lento e mais fiel: o tempo da memória.

Hoje, quando ele já não está, os escritos de Piragibe permanecem como vigília. Não enfrentam o tempo; acompanham-no. Há neles um recolhimento sereno, próprio de quem aceitou o limite sem abdicar da consciência, e uma fidelidade discreta ao que foi vivido. Seus textos guardam aquilo que a vida já não repete, mas a memória sustenta: uma voz baixa e firme que continua a nos lembrar que cuidar do passado é, também, uma forma de permanecer no mundo.

Por Palmarí H. de Lucena