Memória, cana-de-açúcar e identidade na paisagem cultural da Paraíba
Há lugares que parecem existir simultaneamente em duas dimensões. Uma delas é a do presente, com suas ruas, escolas, automóveis, repartições públicas e preocupações cotidianas. A outra é feita de camadas invisíveis de memória que permanecem depositadas sobre a paisagem como sedimentos deixados por um rio antigo. Pilar, na Zona da Mata paraibana, pertence a essa rara categoria de cidades onde o passado não desapareceu inteiramente. Ele continua presente, pairando sobre as fachadas coloniais, escondido sob a sombra das mangueiras, impregnado no cheiro da terra úmida depois da chuva.
Para compreender Pilar, talvez seja necessário começar não pela história oficial, mas pela literatura.
Poucos escritores brasileiros capturaram a alma do Nordeste açucareiro com a intensidade de José Lins do Rego. Em Menino de Engenho, publicado em 1932, o autor transformou a experiência pessoal em um retrato coletivo de uma civilização rural que já dava sinais de esgotamento. O livro narra a infância de Carlos de Melo, mas também registra o crepúsculo de um mundo inteiro: o dos engenhos, dos coronéis, das hierarquias patriarcais e da economia baseada na cana-de-açúcar.
Embora o romance pertença ao território da ficção, sua matéria-prima veio de lugares concretos. Veio dos engenhos, das estradas de barro e das cidades da região onde José Lins passou a infância. Entre esses lugares está Pilar, município que abriga o Engenho Corredor, onde nasceu, em 1901, aquele que se tornaria um dos maiores cronistas do Brasil rural.
Visitar Pilar é compreender que a literatura, às vezes, funciona como uma máquina do tempo.
O visitante que chega pela primeira vez talvez não encontre os grandes canaviais que dominaram a paisagem durante séculos. Muitas das estruturas econômicas que sustentaram a civilização açucareira desapareceram ou foram transformadas. Mas os vestígios permanecem. Eles estão nos nomes das propriedades, nos traçados das estradas vicinais, na arquitetura das antigas casas, nos sobrenomes das famílias e, sobretudo, na memória oral dos moradores.
A história de Pilar começou muito antes de José Lins.
No final do século XVII, missionários jesuítas e indígenas Cariris estabeleceram os primeiros núcleos de ocupação da região. Era um território de fronteira, onde interesses religiosos, econômicos e políticos se cruzavam. Durante algum tempo, a mineração atraiu aventureiros em busca de riqueza rápida. O ouro parecia prometer prosperidade. Contudo, como em tantas outras partes da colônia, o ciclo mineral revelou-se passageiro.
A verdadeira vocação econômica da região acabaria sendo determinada pela cana-de-açúcar.
A partir do século XVIII, os engenhos transformaram a paisagem. Florestas foram abertas. Rios passaram a movimentar rodas d’água. Estradas surgiram para escoar a produção. Uma complexa rede social foi construída em torno da atividade açucareira, envolvendo proprietários, trabalhadores livres, comerciantes e milhares de africanos escravizados cuja força de trabalho sustentou a riqueza da região.
Durante gerações, o ritmo da vida foi determinado pela safra.
A moagem da cana, o transporte da produção, as festas religiosas, os ciclos de plantio e colheita organizavam o calendário coletivo. O açúcar não era apenas um produto agrícola. Era uma forma de organizar a sociedade.
Foi nesse universo que nasceu José Lins do Rego.
Ao ler suas obras hoje, é possível perceber que sua grande realização não foi simplesmente narrar a decadência dos engenhos. O que ele registrou foi algo mais profundo: a transformação de uma ordem social inteira. Seus personagens vivem num mundo em transição, onde antigas certezas começam a ruir sem que novas estruturas estejam plenamente estabelecidas.
Essa sensação de mudança permanente continua presente em Pilar.
Ao caminhar pela cidade, percebe-se uma convivência singular entre permanência e transformação. A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar continua dominando a paisagem urbana como há gerações. O Alto da Imaculada Conceição ainda oferece uma vista ampla sobre a região. Pontes antigas atravessam cursos d’água que testemunharam séculos de deslocamentos humanos.
Mas Pilar não é um museu.
As cidades que sobrevivem são aquelas capazes de reinterpretar seu passado sem se tornarem prisioneiras dele. E é justamente nesse ponto que a história local adquire relevância contemporânea.
Muito antes da consolidação da República brasileira, homens da região participaram de movimentos que questionavam a ordem colonial e imperial. Entre eles destacou-se Manoel Clemente Cavalcanti de Albuquerque, ligado às movimentações republicanas de 1817. Sua trajetória conecta Pilar a uma tradição política frequentemente esquecida: a das revoltas nordestinas em defesa de maior autonomia e representação.
Essa herança de inconformismo atravessou os séculos.
Ela reaparece não apenas na política, mas também na cultura. Surge na valorização da memória local, na preservação dos patrimônios históricos e na projeção de artistas que carregam consigo as marcas da região. Entre eles, Zezita Matos tornou-se um símbolo dessa capacidade de transformar experiências locais em linguagem universal.
Sua carreira demonstra uma verdade frequentemente ignorada pelos grandes centros urbanos: algumas das expressões culturais mais autênticas do país continuam surgindo em cidades pequenas, onde a memória coletiva permanece viva.
Talvez seja essa a principal lição de Pilar.
Num período histórico marcado pela aceleração tecnológica, pela homogeneização cultural e pela perda de referências comunitárias, cidades como esta oferecem uma perspectiva diferente sobre o tempo. Não porque estejam congeladas no passado, mas porque mantêm um diálogo permanente com ele.
O passado, aqui, não aparece como nostalgia.
Ele funciona como uma ferramenta de compreensão.
Quando os moradores falam dos antigos engenhos, das lutas políticas, dos personagens ilustres ou das tradições religiosas, não estão apenas recordando acontecimentos. Estão construindo uma narrativa sobre quem são e sobre o lugar que ocupam na história da Paraíba e do Brasil.
Ao final da tarde, quando a luz dourada se espalha sobre os telhados e as colinas da região, torna-se fácil compreender por que José Lins do Rego jamais abandonou completamente esse universo em sua literatura. Mesmo vivendo no Rio de Janeiro, mesmo participando da vida intelectual do país e ocupando uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, ele continuou escrevendo sobre esse Nordeste de rios lentos, engenhos silenciosos e memórias persistentes.
Pilar permanece como uma das portas de entrada para esse mundo.
Não apenas como cenário de acontecimentos históricos, mas como testemunha de uma experiência brasileira mais ampla: a formação de uma sociedade marcada por encontros culturais, ciclos econômicos, conflitos políticos e extraordinária capacidade de resistência.
Em um país frequentemente obcecado pelo futuro, Pilar lembra que certas respostas ainda podem ser encontradas no passado. Não para repeti-lo, mas para compreendê-lo. E, talvez, para compreender melhor a nós mesmos.
Palmarí H. de Lucena