A expressão “pernas cabeludas” não foi apenas um xingamento de época. Funcionou como instrumento de opressão em um regime que aprendeu a governar também pelo detalhe, pela aparência, pelo gesto mínimo. Ao reduzir pessoas a um traço físico, a linguagem cumpria um papel político: transformar diferença em suspeita e suspeita em culpa antecipada.
Naqueles anos, o corpo tornou-se documento. Não era preciso falar, escrever ou agir para ser enquadrado. Bastava parecer inadequado. Os pelos à mostra, o modo de vestir, o jeito de andar — tudo podia ser lido como sinal de desvio. A expressão condensava uma pedagogia autoritária: enquadrar sem processar, condenar sem acusar, vigiar sem explicar.
Esse mecanismo operava em sintonia com a censura. Enquanto ideias, textos e canções eram cortados, a linguagem cotidiana assumia a função complementar de interditar o debate antes que ele existisse. Onde o argumento era proibido, o rótulo prosperava. “Pernas cabeludas” dispensava explicações: bastava nomear para excluir. A palavra fazia o trabalho sujo do silêncio oficial.
O efeito era duplo. De um lado, ridicularizar para isolar — associando rebeldia a desleixo moral. De outro, desumanizar para legitimar a repressão — porque caricaturas não pedem direitos. Assim, a violência deixava de parecer exceção e passava a soar como correção de conduta. A piada virava método.
Não por acaso, jovens e mulheres figuraram entre os alvos preferenciais. O insulto trazia uma disciplina implícita sobre o corpo feminino, punindo a autonomia e reforçando padrões aceitáveis de comportamento. Era política disfarçada de comentário banal, circulando com naturalidade justamente por escapar à censura formal.
O mais revelador é que esse tipo de linguagem não precisava de porões para funcionar. Operava à luz do dia, nas ruas, nos corredores, nas conversas comuns. A repressão aprendia a ser econômica: quando o vocabulário enquadra, o aparato pode recuar. O controle já foi internalizado.
Revisitar “pernas cabeludas” hoje é exercício de memória cívica. Lembra que regimes autoritários não se impõem apenas por atos institucionais ou forças armadas, mas também por palavras aparentemente inofensivas que normalizam o controle e banalizam a exclusão. Quando o corpo vira indício, a liberdade já foi reduzida ao silêncio.
Onde a censura cala, o rótulo grita. E quando a linguagem transforma aparência em prova, a democracia começa a perder algo essencial: o direito de existir sem pedir licença.
Por Palmarí H. de Lucena