Os versos que ficaram na memória

Os versos que ficaram na memória

Há livros que chegam até nós pelas mãos. Outros chegam pela voz. Emoções, de Osório Paes, chegou até mim pela voz de minha mãe, Neusa Holanda.

Eu a ouvia recitar em casa. Naquele tempo, não sabia que aqueles versos pertenciam a um poeta de Alagoa Grande, nem que, muitos anos antes, ela havia se sentado diante dele como paciente, em seu consultório na Rua da Areia, em João Pessoa. Para mim, Osório Paes existia primeiro daquele jeito: na voz dela, misturado às coisas simples da casa, às tardes que passaram e que hoje só consigo alcançar pela lembrança.

Algumas palavras ficaram. Entre elas, estes versos: Oh palidez, imácula, bendita, / A palidez serena do teu rosto… Eu não conhecia o livro, mas conhecia a voz. Lembro-me de como ela começava a recitar e de como, por alguns instantes, aquelas palavras pareciam ocupar a casa inteira. Havia um ritmo próprio na sua maneira de dizê-las, uma pausa entre um verso e outro, como se ela não estivesse apenas recitando, mas reencontrando alguma coisa que trazia consigo.

Talvez eu não soubesse, naquela época, que estava guardando aquilo.

Hoje, basta ler o primeiro verso para que alguma coisa se mova dentro de mim. A página está diante dos meus olhos, mas é a voz dela que escuto. O tempo desaparece por um instante, e o poema volta a ter o som de antes.

Foi essa voz que me fez procurar o poeta.

Comecei devagar, como quem procura uma fotografia antiga entre papéis guardados. O nome de Osório Paes foi aparecendo nos jornais velhos de João Pessoa. Em A União, encontrei notícias que o apresentavam como cirurgião-dentista. Em outra página, de 1936, estavam seus versos publicados no suplemento Cultura. De repente, o homem que eu conhecia pela lembrança ganhou uma presença diante dos meus olhos. Era dentista. Era poeta. E aquelas duas figuras, que durante tanto tempo haviam existido juntas na voz que eu ouvia em casa, apareciam agora também nas páginas antigas de um jornal.

Continuei procurando.

Encontrei Emoções, publicado em 1931, e descobri que o livro também havia atravessado o tempo com dificuldade. Um exemplar apareceu muitos anos depois num sebo, despertando o desejo de resgatar a obra. Aquilo me tocou. Enquanto alguém procurava um livro perdido, eu pensava nos versos que já tinham encontrado outro caminho para sobreviver.

Tinham ficado na memória.

E foi então que percebi que minha procura não era apenas por Osório Paes. Eu procurava também aquilo que havia ficado de um tempo que não vivi. Procurava a cidade por trás daquela lembrança, a rua, o consultório, o homem que escrevia poemas e que um dia recebera minha mãe como paciente.

Talvez por isso uma pequena rua de Tambaú, com o nome de Osório Paes, tenha me chamado tanta atenção. Ao passar por ali, não vi apenas uma placa. O nome me devolveu às histórias que eu vinha juntando, àquela João Pessoa de outros tempos e, sobretudo, à voz que primeiro me apresentou seus versos. Por um instante, a rua pareceu aproximar duas épocas: a cidade que eu conheço e aquela que chegou até mim pelas lembranças de casa.

Foi como se o poeta estivesse ali de outra maneira, não mais nas páginas de um jornal ou escondido num livro difícil de encontrar, mas incorporado à própria cidade. Um nome numa rua, uma lembrança em casa, alguns versos guardados na memória. Pequenos sinais que, reunidos, foram me levando de volta a uma história que também se tornou minha.

Cada descoberta parecia aproximar um pouco mais uma cena que eu não havia presenciado, mas que, de alguma maneira, fazia parte de mim.

No entanto, por mais que eu encontrasse datas, jornais, livros e sinais espalhados pela cidade, havia uma coisa que nenhum documento podia devolver: o som daquela voz.

E talvez seja justamente aí que a memória começa a fazer o seu trabalho.

Porque o livro precisou ser procurado. A poesia, não. Ela já estava comigo.

Quando hoje leio aquele trecho de Emoções, não consigo vê-lo apenas como palavras impressas num livro antigo. Vejo a cena de uma casa, ouço aquela voz e volto, por um instante, ao lugar onde tudo começou. Não sei mais dizer onde terminava o poema e onde começava a lembrança. As duas coisas se misturaram com o tempo.

Foi assim que continuei procurando Osório Paes. Buscava seus livros, seus versos, os vestígios de sua passagem por João Pessoa. Mas, sem perceber, cada descoberta me conduzia de volta à mesma lembrança. Quanto mais eu encontrava o poeta, mais perto ficava daquela voz.

Emoções tornou-se, para mim, mais do que um livro de 1931. Nas páginas antigas, encontrei o dentista; nos poemas, o escritor. Nas ruas da cidade, encontrei ainda pequenos sinais de sua passagem. Mas foi na lembrança que encontrei aquilo que nenhum jornal poderia registrar: a maneira como esses versos chegaram até mim.

E é por isso que, tantos anos depois, quando releio Oh palidez, imácula, bendita…, não encontro apenas Osório Paes.

Encontro uma voz.

A voz que primeiro me ensinou a guardar seus versos — e que o tempo, felizmente, não conseguiu levar.

Palmarí H. de Lucena