Os Pratos da Rua Osório Paes

Os Pratos da Rua Osório Paes

Há ruas que parecem ter sido escritas, não traçadas — e a Rua Osório Paes Carvalho Rocha, em Tambaú, é uma delas. Pequena, curvada como um verso antigo, ela conserva em suas calçadas o murmúrio das noites passadas. À sombra das árvores e sob o brilho cálido das luzes, o ar se mistura ao perfume do vinho, do manjericão e das conversas que o vento insiste em guardar.

Não é por acaso que leva o nome de um poeta. Osório Paes, esse homem de palavra delicada e alma andarilha, ainda parece caminhar por ali, soprando poesia nas esquinas. Sua rua — e o lugar que nela floresceu — são feitos da mesma matéria que compõe os sonhos: memória, afeto e tempo.

Foi nesse cenário que nasceu o Appetito Trattoria, um refúgio onde João Pessoa aprendeu a misturar o sotaque da Itália com a doçura da sua gente. Fundado nos anos 1990, o restaurante cresceu ao ritmo dos encontros, das histórias compartilhadas, das taças que se tocavam sem pressa. Havia uma magia silenciosa no ar — e ela se materializava nas paredes, cobertas de pratos com os nomes dos clientes, pintados em estilo simples, artesanal, afetivo. Cada um deles era um gesto de gratidão, um testamento do amor e da convivência.

Ali estavam nomes de casais que se amaram sob a luz das velas, amigos que celebraram reencontros, viajantes que descobriram na mesa o aconchego de um lar. Havia também os nomes dos que vieram do interior, dos que partiram cedo demais, dos que deixaram, sem saber, um traço na alma da cidade. O Appetito era mais do que um restaurante — era uma crônica coletiva, escrita em porcelana.

As noites na Rua Osório Paes tinham um ritmo próprio: o riso discreto, o tilintar das taças, o passo lento dos que sabiam que o tempo ali não se media em horas, mas em lembranças. Era a boemia na sua forma mais terna — sem excessos, sem alarde, apenas o prazer de existir junto, de conversar devagar, de ver o amor amadurecer como o vinho.

Mas o tempo, que é sempre apressado e impiedoso, passou. O salão foi reformado, as paredes clareadas, os pratos — ah, os pratos — desapareceram. Ficou o espaço, ficou o nome, mas algo essencial se desfez no ar, como um perfume antigo que o vento leva sem aviso.

Saí dali uma noite e, no caminho, olhei para o céu da Rua Osório Paes. As luzes dos postes tremiam sobre o calçamento, e tive a impressão de ouvir, nas frestas do silêncio, os ecos do passado: risos, promessas, brindes. Pensei que a memória é a mais delicada das presenças — quando não cuidamos dela, evapora.

E eu sigo acreditando que a memória não morre — apenas muda de forma, como o amor. Enquanto alguém lembrar de um jantar, de um nome num prato, de uma conversa à meia-luz, o Appetito continuará existindo — não no espaço, mas no coração da cidade.

Por Palmarí H. de Lucena