João Pessoa, a cidade onde o sol nasce primeiro, parece ter desaprendido o próprio caminho da luz. Em vez de iluminar a cidadania, a gestão pública tem preferido os holofotes da propaganda. As fachadas reluzentes, os tapumes pintados às pressas, os vídeos bem editados com drones sobrevoando obras improvisadas escondem, com a destreza de um ilusionista mal-intencionado, a precariedade crescente dos serviços públicos. Saúde, educação, transporte e cultura se arrastam pelas bordas da cidade real — aquela que não cabe no feed de rede social.
Demonstrando preocupação com as normas de urbanização, segurança e convívio social, a Câmara de Vereadores da Paraíba aprovou, em 1831, seu primeiro Código de Posturas Municipais. Definia com clareza os deveres dos habitantes: preservar edifícios e moradias, seguir procedimentos para demolição ou reedificação de imóveis em risco, manter calçadas e ruas. A cidade, então pequena, já era pensada com seriedade por legisladores atentos ao futuro. Dois séculos depois, essa visão civilizatória naufragou sob os escombros do desleixo administrativo, da especulação imobiliária e da obsessão por um progresso fictício.
A deterioração do centro histórico de João Pessoa é um retrato vivo da nossa incapacidade de preservar o que nos dá identidade. A cidade terceira do Brasil, com espólio patrimonial que deveria ser orgulho, é hoje palco de abandono e negligência. Tombamentos são tratados como fim e não como parte de uma política pública de preservação e pertencimento. Falta-nos uma cultura preservacionista. Cultuamos o novo — não por inovação, mas por pressa. Descuidamos do legado comum, preferindo o brilho fugaz do asfalto recém-lançado ao valor profundo das pedras seculares.
E como se não bastasse o descaso, ainda oferecemos renúncia fiscal como isca generosa aos tubarões do mercado imobiliário, que deixaram casarões históricos desabarem aos pedaços para depois, sob o pretexto de “revitalização”, capturarem incentivos milionários. Premia-se o abandono. Premia-se o desrespeito ao bem comum. O lucro, travestido de restauração, ignora a memória da cidade. A lógica perversa é simples: deixa-se ruir para depois reconstruir ao gosto da especulação — desde que o contribuinte banque a conta. O que era patrimônio, vira fachada vazia; o que era história, vira empreendimento comercial com nome estrangeiro e tijolo genérico.
A pichação em muros restaurados, o vandalismo sobre fachadas centenárias — facilitado pela ausência de segurança e fiscalização — e os imóveis tombados abandonados à própria sorte revelam a falência não apenas da gestão urbana, mas da sensibilidade coletiva. E não é só no patrimônio cultural que a negligência se revela: ela transborda para os postos de saúde sem médicos, escolas com estruturas comprometidas, ônibus superlotados e bairros esquecidos onde a população é chamada a votar, mas nunca a participar.
Enquanto isso, políticos vivem em perpétua campanha, ausentes da cidade real e onipresentes na cidade virtual. Os vilarejos Potemkin — referência à estratégia czarista de construir cenários falsos para enganar a imperatriz — se multiplicam em João Pessoa. São ruas asfaltadas apenas até a esquina da filmagem, creches pintadas por fora e vazias por dentro, praças ornamentadas sem segurança, sem uso, sem vida.
O ordenamento urbano de 1831, que previa multas por danos às vias públicas, hoje virou ficção diante da impunidade dos que rasgam a cidade com retroescavadeiras a serviço de interesses privados. A ocupação desordenada avança. A mobilidade urbana, moldada para carros e não para pessoas, aprofunda desigualdades. E o cidadão, transformado em pedinte institucional, agradece por aquilo que lhe é de direito: atendimento digno, transporte eficiente, ruas transitáveis.
Preservar é educar. E educar é investir. Políticas públicas de preservação precisam partir do passado não como um peso, mas como trampolim para o futuro. Recriar o que supostamente já existia não basta. É preciso sustentar o pertencimento coletivo e frear o apetite voraz de quem só vê na cidade uma vitrine lucrativa. João Pessoa precisa parar de posar para fotos e começar a encarar o espelho. A maquiagem dos Potemkins já derrete ao sol que nasce. E o povo, cada vez mais, começa a enxergar o que se esconde por trás do pano de fundo: uma cidade exausta, mas ainda capaz de reagir.
Por Palmarí H. de Lucena