Os Melhores Frutos

Os Melhores Frutos

O sinal fechou e a fila de automóveis começou a se formar no cruzamento.

Era uma manhã como tantas outras. Motores em marcha lenta, motocicletas insinuando passagem entre os carros, vendedores ambulantes percorrendo a calçada e pessoas ocupadas demais para reparar umas nas outras. Os rostos, iluminados pela luz azulada dos telefones, pareciam voltados para lugares distantes, embora os corpos permanecessem ali, retidos pela mesma luz vermelha.

Entre os veículos caminhava um homem apoiado numa muleta. Avançava devagar, parando de janela em janela. Alguns condutores procuravam moedas. Outros fingiam não vê-lo. A maior parte permanecia absorta em pensamentos, mensagens ou notícias cuja importância provavelmente não sobreviveria ao fim do dia.

Na esquina havia um vendedor de frutas.

Seu carrinho exibia mangas, bananas, goiabas e mamões cuidadosamente arrumados. Não era um homem rico. Dependia daquelas vendas, uma a uma, para justificar a longa jornada iniciada antes do amanhecer. Ainda assim, enquanto observava o homem atravessar o cruzamento, deixou por um instante o trabalho de lado.

Poderia ter escolhido qualquer fruta.

Poderia ter separado uma das mais maduras, uma das que talvez não vendesse até o final da tarde. Teria sido compreensível. Afinal, a cidade inteira parece funcionar segundo essa lógica discreta pela qual se oferece aos outros aquilo que não fará falta.

Mas ele não fez isso.

Examinou o carrinho com atenção e escolheu os melhores frutos. Uma manga sem marcas, uma goiaba perfeita, uma banana firme. Pegou-os com o mesmo cuidado de quem prepara uma encomenda para um cliente habitual.

Quando o homem se aproximou, estendeu-lhe as frutas.

Nada mais.

Nenhum discurso. Nenhuma demonstração de generosidade. Nenhuma das pequenas encenações que costumam acompanhar as boas ações quando elas desejam ser vistas.

Os dois trocaram algumas palavras breves, quase inaudíveis em meio ao ruído do trânsito. O homem agradeceu. O vendedor voltou ao carrinho.

O sinal abriu.

Os automóveis seguiram adiante. Novos veículos ocuparam os lugares dos antigos. O movimento da cidade recompôs-se imediatamente, como a superfície da água depois da passagem de uma embarcação.

Ainda assim, alguma coisa permanecia.

Não porque um homem tivesse dado frutas a outro. Isso acontece todos os dias, em toda parte. O que permanecia era a natureza da escolha. Entre todas as frutas que possuía, o vendedor havia separado as melhores.

Talvez a vida em sociedade dependa menos das grandes virtudes celebradas nos livros e mais desses gestos discretos, quase invisíveis, que não alteram o curso do mundo, mas impedem que ele se torne inteiramente indiferente.

O cruzamento continuou o mesmo. O trânsito continuou o mesmo. A manhã continuou o mesmo caminho de sempre.

Mas, por alguns instantes, duas pessoas haviam se encontrado fora da lógica apressada que governa quase tudo.

E isso, embora pequeno, não parecia pouca coisa.

Palmarí H. de Lucena