Os Herdeiros dos Cafajestes

Os Herdeiros dos Cafajestes

Numa cafeteria movimentada, numa manhã comum de semana, um homem interrompe o café para fotografá-lo. Ajusta a xícara, corrige o enquadramento, afasta o açucareiro que compromete a composição. O gesto dura poucos segundos, mas parece concentrar uma atenção maior do que a dedicada à própria bebida. Quando a fotografia finalmente é publicada, o café já começou a esfriar.

A cena dificilmente surpreende. Tornou-se um dos rituais discretos da vida urbana. Em algum momento, passamos a atribuir às experiências uma segunda existência, paralela à primeira: não basta vivê-las, é preciso registrá-las, editá-las e oferecê-las ao olhar dos outros. O cotidiano ganhou uma camada adicional de significado. Cada refeição, cada viagem, cada opinião tornou-se potencialmente parte de uma narrativa pública.

Há algo nesse comportamento que remete, ainda que de forma distante, aos personagens de Os Cafajestes. Quando o filme chegou aos cinemas, em 1962, retratava jovens que transitavam pelo Rio de Janeiro protegidos pela convicção de que determinadas regras não lhes diziam respeito. A segurança com que ocupavam o mundo era menos uma característica individual do que um atributo social. Pertenciam a uma época em que privilégios raramente precisavam ser justificados.

Hoje os privilégios costumam vir acompanhados de explicações. Tornaram-se mais cuidadosos com a própria apresentação. A linguagem da distinção social foi substituída pelo vocabulário do mérito, da autenticidade e do desempenho. O que antes era exibido de forma ostensiva agora aparece revestido de naturalidade. A antiga ostentação cedeu lugar à curadoria da própria imagem.

O Brasil sempre manteve uma relação peculiar com a aparência. Em diferentes momentos históricos, ela assumiu a forma do sobrenome influente, do endereço prestigiado, do automóvel importado ou do acesso a determinados círculos sociais. A era digital não eliminou essa tradição. Apenas ampliou suas possibilidades. O prestígio tornou-se mais visível, mais mensurável e, sobretudo, mais permanente. Já não depende apenas da presença física. Circula incessantemente por telas, perfis e plataformas.

Há, contudo, uma dimensão particularmente brasileira nesse processo. Num país onde a ascensão social continua sendo, para muitos, mais uma promessa do que uma experiência concreta, a exibição da vida bem-sucedida exerce um fascínio especial. Ela oferece não apenas um modelo de sucesso, mas uma narrativa reconfortante sobre o próprio país. Sugere que esforço e talento bastam. Que os percursos são semelhantes. Que as linhas de chegada estão igualmente distribuídas. Poucas histórias encontram terreno mais fértil do que aquelas que simplificam realidades complexas.

Essa transformação produziu um fenômeno curioso. Nunca tantas pessoas tiveram a oportunidade de construir uma imagem pública. Ao mesmo tempo, tornou-se mais difícil distinguir reconhecimento de visibilidade, autoridade de exposição, relevância de alcance. A lógica da atenção passou a ocupar espaços que antes pertenciam à reputação. Em muitos casos, a capacidade de ser visto adquiriu valor próprio, independentemente daquilo que efetivamente merece ser observado.

Talvez resida aí a atualidade persistente de Os Cafajestes. O filme sobrevive menos por seus personagens do que pelo mecanismo social que expõe. A facilidade com que uma sociedade pode se encantar por sinais exteriores de sucesso. A rapidez com que transforma performance em caráter. A disposição recorrente para confundir segurança com competência e privilégio com talento.

Ao final da manhã, o homem deixa a cafeteria. A fotografia continua circulando. Acumula reações, comentários e breves demonstrações de aprovação. O café, agora frio, desaparece sem deixar vestígios. Horas depois, outra imagem ocupará seu lugar, seguida por outra, e mais outra, numa sucessão interminável de pequenos espetáculos cotidianos.

Da mesa, restará apenas a xícara vazia recolhida pelo garçom.

Talvez seja nessa imagem simples — e não nos números, nos algoritmos ou nas curtidas — que se esconda a permanência dos velhos cafajestes. Eles sempre compreenderam algo que continua movendo a vida social brasileira: o valor daquilo que pode ser visto. O restante, quase sempre, permanece fora do enquadramento.

Palmarí H. de Lucena