Os Caminhos de Roma até Cinecittà

Os Caminhos de Roma até Cinecittà

Ela caminha pelas ruas de Roma como quem atravessa um sonho. Não corre, não se apressa. Há algo de ritual em seus passos — talvez o mesmo compasso que moveu Gelsomina em La Strada, ou o andar lânguido de Sylvia quando entrou, vestida de luz e mistério, na Fonte de Trevi. A mulher sonha enquanto caminha, e Roma, cúmplice eterna dos que sonham, se deixa atravessar por ela.

A cidade, nesse início de manhã, é um palco em silêncio. Os sinos das igrejas misturam-se ao barulho distante das vespas, e o vento carrega o cheiro de café, pão recém-assado e história. A Via Appia Antica se estende como uma fita de filme em preto e branco, ladeada por ciprestes que guardam as sombras de centuriões, atores e poetas. Roma é muitas Romas — a imperial, a barroca, a popular — e todas parecem falar ao ouvido da mulher que agora se aproxima de Cinecittà, o templo das ilusões.

Nos muros, grafites de rostos conhecidos: Fellini, Mastroianni, Masina. Mais adiante, os olhos imensos de Sophia Loren parecem segui-la; o sorriso desarmado de Gina Lollobrigida acena de um cartaz desbotado; a beleza altiva de Claudia Cardinale e a força silenciosa de Silvana Mangano pairam no ar como espectros elegantes de uma era dourada. Em cada rosto, um fragmento da Itália que ensinou o mundo a sonhar com o cinema.

Na esquina de uma trattoria, um velho rádio ainda toca Nino Rota. O som parece vir de outro tempo — o tempo em que Ladrão de Bicicletas revelou o rosto da miséria com a delicadeza da poesia. Vittorio De Sica transformou a rua em estúdio, e o povo em protagonista. Ali nasceu o neorrealismo, feito de lágrimas verdadeiras e esperanças precárias. E foi com Arroz Amargo que Silvana Mangano, de pés descalços no arrozal, ergueu-se como símbolo da mulher que resiste e encanta — metade força, metade sonho.

A mulher continua seu caminho, agora pela Via Tuscolana. À sua frente, o portão de Cinecittà reluz sob o sol romano. Ela imagina que, por trás daquelas paredes, Sergio Leone ainda filma duelos intermináveis em desertos de papelão, que Claudia Cardinale dança sob o pó das filmagens e que Mastroianni improvisa uma última cena, elegante como sempre, entre um cigarro e um sorriso.

Cinecittà — cidade do cinema, cidade dos sonhos. Fundada por Mussolini para exaltar o regime, tornou-se, ironicamente, o santuário da fantasia, o lugar onde o real se converte em fábula. Ali, Giulietta das luzes e sombras, Anita das águas e sorrisos, todos deixaram rastros de eternidade. Em cada galpão, um universo. Palácios que não existem em nenhum mapa, desertos que cabem dentro de um hangar, mares que se movem sob o comando de um ventilador e um balde d’água. Tudo falso — e, no entanto, mais verdadeiro do que o real.

Ela passa pelos portões como quem cruza uma fronteira invisível. O ar muda. É possível sentir o perfume da película antiga, ouvir passos de figurantes que não existem mais, o ranger das câmeras girando como se o tempo voltasse a rodar. A mulher sorri. Pensa em Fellini, que dizia que o cinema é o sonho mais próximo que conseguimos tocar com as mãos. E entende, enfim, que não veio a Cinecittà por acaso: veio para lembrar que também é feita de histórias que inventou para sobreviver. Caminhar até ali é retornar a si mesma, é confessar que a vida, para ser suportável, precisa de um pouco de fantasia.

Do lado de fora, Roma continua pulsando. As vozes dos vendedores ecoam, o trânsito cresce, a vida retoma seu curso. Mas algo ficou diferente — um brilho nos olhos, uma vontade de não acordar.
E enquanto o sol se põe sobre as cúpulas e as ruínas, a mulher — agora personagem — continua a caminhar.
Talvez em direção ao próximo sonho.
Talvez rumo ao próximo filme.

Por Palmarí H. de Lucena