ONU: Do projeto de 1945 à gestão do inevitável

ONU: Do projeto de 1945 à gestão do inevitável

Instituições também envelhecem. Não apenas em seus prédios, rituais ou discursos, mas sobretudo naquilo que lhes dá sentido: a imaginação que as fundou. A Organização das Nações Unidas nasceu, em 1945, como resposta a um colapso civilizatório. Seu projeto original não era administrar o mundo como ele é, mas impedir que ele voltasse a ser aquilo que havia se tornado. Essa ambição — ao mesmo tempo frágil e necessária — deu forma à ONU.

No imediato pós-guerra, a política internacional não buscava eficiência. Buscava evitar a repetição do horror. A ONU foi concebida como aposta moral antes de se tornar arranjo técnico: direitos humanos, cooperação multilateral, diálogo institucional como contenção da força bruta. Nada disso vinha acompanhado de garantias. Havia mais imaginação do que método, mais esperança do que cálculo.

Com o passar das décadas, contudo, o projeto de 1945 foi cedendo espaço a outra racionalidade. A ONU contemporânea opera crescentemente sob a lógica da mitigação. Conflitos são monitorados, crises são quantificadas, tragédias transformam-se em relatórios e séries estatísticas. A instituição criada para evitar o impensável tornou-se especialista em administrar o previsível. O mundo deixou de ser pensado; passou a ser gerido.

Esse deslocamento não pode ser explicado apenas por falhas internas. Ele reflete uma transformação mais ampla da política internacional, marcada pela retração do multilateralismo e pela valorização de soluções unilaterais ou estritamente nacionais. Nesse ambiente, a cooperação passou a ser percebida como custo, não como investimento coletivo.

A política externa americana durante a era do America First funcionou como expressão visível dessa mudança. Ao tratar alianças como contratos contingentes e organismos multilaterais como entraves à soberania, os Estados Unidos reforçaram uma lógica transacional já em curso. Não se tratou de romper formalmente com a ONU, mas de relativizar seu valor simbólico e político. Quando a principal potência fundadora questiona o esforço comum, o sistema inteiro sente o impacto.

O efeito sobre a organização foi imediato e silencioso. Sem respaldo político consistente, a ONU passou a agir com maior cautela, menor ambição normativa e crescente dependência da linguagem técnica. O espaço da imaginação foi ocupado pela prudência. A criação deu lugar à contenção. A política, à gestão do inevitável.

Ainda assim, seria simplificador atribuir essa transformação a um único país ou liderança. Outras potências também operam sob lógicas seletivas de cooperação, guiadas por interesses imediatos. A crise do multilateralismo é, antes de tudo, uma crise de confiança e de horizonte. A ONU tornou-se, em muitos casos, o espelho dessa fragmentação — não sua causa.

O problema central talvez não seja institucional, mas intelectual. Falta à política global contemporânea a disposição de pensar além do curto prazo, de conectar interesses nacionais a responsabilidades globais, de aceitar que a interdependência não é concessão, mas condição estrutural do mundo atual. Quando essa imaginação se retrai, resta apenas a contabilidade do risco.

A ONU não fracassa apenas quando falha em impedir guerras ou crises humanitárias. Ela fracassa quando deixa de ser um espaço onde o futuro pode ser concebido coletivamente. Sobrevive, mas esvaziada de sentido histórico.

Assim, ONU: Do projeto de 1945 à gestão do inevitável não é apenas um título, mas a síntese de um percurso. Ele descreve o caminho de uma instituição que nasceu da ousadia de imaginar um mundo diferente e que hoje luta para não se reduzir a um balcão de administração das tragédias que já não consegue evitar.

Por Palmarí H. de Lucena