Onde o silêncio encontra a esperança

Onde o silêncio encontra a esperança

Recife amanhece antes do sol. A cidade se move entre pontes, rios e mangues. O cheiro do café se mistura ao sal da maré, as primeiras portas se abrem, os barcos chegam e as ruas começam a receber quem parte cedo para o trabalho ou para a escola. Em meio a esse movimento, há quem comece o dia sem saber o que haverá sobre a mesa. O dia começa, mas não para todos da mesma maneira.

Foi nesse cenário que Josué de Castro aprendeu a olhar. Nos mangues, encontrou homens, mulheres e crianças entre a lama, os caranguejos e a necessidade. Não viu apenas uma paisagem, mas pessoas que dependiam do que a maré deixava para trás. Aquela gente estava perto demais para ser ignorada e distante demais para ser vista por quem passava pelas partes mais confortáveis da cidade. Josué quis entender por que, em uma terra capaz de produzir tanto, o acesso ao alimento podia continuar sendo uma preocupação diária.

Sua investigação começava no cotidiano: um prato vazio, uma família, uma maré, um mangue. O que acontecia ali não terminava na lama. Seguia pelas ruas, entrava nas casas e chegava às escolas. Aos poucos, aquelas cenas formavam um desenho maior, e Josué passou a procurar as relações que estavam por trás delas.

É também pelas ruas que essa história chega às salas de aula. Anos depois, Paulo Freire encontraria trabalhadores que traziam para a escola a marca dos mesmos lugares: a feira, a casa, a terra, o trabalho e, às vezes, o mangue. O que Josué escutava no rumor da maré, Freire escutaria na voz dos alunos: histórias miúdas, palavras hesitantes, conhecimentos aprendidos antes do livro.

Talvez seja aí que os dois se aproximem. Não por terem seguido o mesmo caminho, mas por terem prestado atenção ao que acontecia diante deles. Josué ouviu o mangue através das vidas que dependiam dele. Freire ouviu a sala de aula através das experiências que cada aluno trazia consigo. Antes de procurar respostas, ambos aprenderam a permanecer diante da cena.

Freire prestava atenção a isso. Um caderno se abria sobre a mesa, mas a aula começava também naquilo que o aluno trazia consigo. As experiências não desapareciam diante das letras; ganhavam lugar ao lado delas. Uma palavra podia nascer de uma cena conhecida, de um objeto da casa, de um caminho percorrido todos os dias. O mundo vivido entrava na sala antes de virar exercício.

Josué caminhava pelo mangue. Freire, pelas salas de aula. Entre um e outro havia rios, pontes, casas e pessoas levando consigo o que a maré, o trabalho e a vida lhes haviam deixado. O que Josué encontrava na lama podia reaparecer, algum tempo depois, sobre uma mesa escolar, entre um caderno aberto e uma palavra ainda por escrever.

Um prato e um caderno bastam para aproximar os dois. De um lado, aquilo que chega à mesa; do outro, aquilo que começa a ganhar nome. Entre eles, uma criança, sentada diante da página.

Recife mudou. Cresceu, ganhou edifícios, avenidas e novos bairros. Os rios continuam atravessando a paisagem, e os mangues ainda guardam parte de sua memória. Nas escolas, os cadernos continuam se abrindo. Nas casas, as mesas continuam reunindo o que cada família conseguiu colocar sobre elas. Há paisagens novas, mas algumas cenas permanecem.

Uma criança chega à escola sem ter comido. Outra chega alimentada, mas sem livros em casa. Um adulto lê com dificuldade um documento que precisa assinar. Outro aprendeu a ler, mas ainda procura quem tenha tempo para ouvi-lo. São situações diferentes, vividas por pessoas diferentes.

No fim da manhã, o sol bate sobre as águas, os mercados se enchem e os barcos retornam. Em uma sala de aula, uma criança abre o caderno e espera a professora. Antes de começar, tira da mochila um pequeno pedaço de pão embrulhado em papel. Come devagar, enquanto a sala se enche de vozes, cadeiras arrastadas e lápis sobre a página.

A professora passa entre as carteiras e pergunta se ela já terminou. A criança olha para o caderno e responde que ainda falta uma palavra. A professora pergunta qual. Ela aponta com o lápis para a linha quase no fim da página e diz: “Essa aqui.”

A professora se aproxima. A criança tenta escrever, apaga e tenta de novo. Pergunta se a palavra é grande. A professora responde que é um pouco. A criança olha para o relógio na parede e pergunta se dá tempo. A professora responde que dá.

Ela volta ao caderno e escreve devagar, letra por letra. Para no meio, relê, apaga uma pequena parte e recomeça. Quando termina, não chama a professora. Apenas vira o caderno um pouco para o lado, deixando a palavra à vista. Depois dobra o papel que envolvia o pão e guarda-o na mochila.

Pela janela, entra o ruído distante da rua. Mais adiante, o rio passa sob a ponte, escuro e lento, seguindo em direção ao mangue. A maré começa a mudar, cobrindo aos poucos a lama onde, tantos anos antes, Josué de Castro procurara entender a vida daqueles que quase nunca apareciam nas páginas dos livros.

Na sala, a professora retoma a lição. A criança acompanha com o lápis. Sobre a mesa, o caderno permanece aberto. Ao lado dele, o pequeno embrulho vazio.

Por alguns instantes, ninguém diz nada. Há apenas a voz da professora, o risco do lápis sobre o papel e o rumor distante da água.

A criança escreve a próxima palavra.

Do lado de fora, a maré sobe.

Palmarí H. de Lucena