Antes da estrada havia a margem,
antes da casa, a água.
No fim da tarde, os barcos
ficam presos às estacas.
Há um casco vermelho e amarelo
inclinado junto à pedra.
Mais adiante, outros barcos
se espalham pela baía aberta.
A água não está parada.
Pequenas ondas batem na margem
e voltam, levando consigo
folhas, espuma e areia.
Do outro lado, o mangue
se estende baixo e escuro.
Algumas casas aparecem longe,
quase confundidas com o mato.
Aqui, a distância é medida
pelo tempo da travessia,
pelo barco que ainda se vê
quando a tarde perde a luz.
Há redes, cordas, madeira,
há marcas de uso no casco.
Coisas feitas para durar
até que a água as desgaste.
Quem vive junto ao rio
aprende cedo essas mudanças:
o lugar onde a água sobe,
o lugar onde a areia avança.
Aprende a esperar a maré,
a conhecer o vento,
a sair quando há passagem
e voltar antes da noite.
Mas também há aquilo
que não se aprende de uma vez.
O peixe que diminui.
A margem que se transforma.
Um barco que deixa de sair.
Uma casa que fica vazia.
A paisagem vai mudando
sem deixar de parecer a mesma.
Talvez seja isso que permanece
na vida de quem mora à margem:
não a água que se vê,
mas o costume de acompanhá-la.
Ao cair da tarde,
os barcos já não avançam.
Ficam espalhados sobre a água,
pequenos diante do céu.
A margem escurece primeiro.
Depois, os barcos.
Por último, quase desaparece
a outra margem.
Amanhã, antes do sol,
alguma corda será desatada.
Um casco voltará à água.
A travessia começará de novo.
Nada será exatamente igual.
Nem a água,
nem a margem,
nem quem parte.
Só o caminho permanece
por algum tempo,
onde a água passa.
Palmarí H. de Lucena –
Rio Paraíba, foto do autor