Oligarquia do Silício: O Casamento de Trump com a Elite Tecnológica

Oligarquia do Silício: O Casamento de Trump com a Elite Tecnológica

No dia da posse de Donald Trump em 2017, enquanto os holofotes estavam voltados para os eventos oficiais, um seleto grupo de bilionários comemorava em uma festa privada. Entre eles, Miriam Adelson, magnata dos cassinos, e Todd Ricketts, futuro presidente de finanças do Comitê Nacional Republicano. Mark Zuckerberg, por sua vez, mantinha-se distante, manifestando solidariedade aos imigrantes afetados pelas primeiras ordens executivas de Trump. “Essas questões são pessoais para mim”, escreveu na época.

Oito anos se passaram e, surpreendentemente, Zuckerberg mudou de postura. Agora, não apenas busca proximidade com Trump, mas coorganiza um dos eventos mais disputados do fim de semana inaugural de 2025. Sentado à frente do novo gabinete no Capitólio, a convite pessoal do presidente, ele simboliza uma nova dinâmica de poder em Washington. O distanciamento deu lugar à adesão, e os bilionários da tecnologia abraçam Trump com entusiasmo, recebendo sua reciprocidade.

O Vale do Silício marcou presença em peso na posse. Gigantes da Apple, Google, TikTok, Amazon e Tesla estavam lá. Jeff Bezos, antes alvo das críticas do presidente, agora faz doações generosas. Elon Musk, que investiu mais de US$ 250 milhões na campanha de reeleição, destaca-se entre os convidados VIP.

Essa aliança indica que o segundo mandato de Trump será moldado por relações diretas com os mais ricos, inaugurando um novo modelo de oligarquia nos Estados Unidos. Em 2017, Trump prometia combater “o pequeno grupo no poder” em Washington. Hoje, ele retorna sustentado pelo apoio financeiro de bilionários que, juntos, arrecadaram mais de US$ 225 milhões para sua posse.

A trajetória de Zuckerberg exemplifica essa metamorfose. O CEO da Meta não só visitou Mar-a-Lago, como integrou um aliado de Trump ao conselho corporativo da empresa, desativou o programa de checagem de fatos da Meta e articulou diretamente para encerrar um processo de 2021 que barrava Trump da plataforma. Tais gestos não são meras coincidências, mas sim movimentos calculados para se manter em boa sintonia com o poder.

Mas qual o retorno esperado por esses magnatas? Contratos federais bilionários, regulações mais flexíveis e a influência direta sobre decisões políticas. O próprio Trump explora novos caminhos financeiros, como a criptomoeda $TRUMP, criando um ambiente onde os aliados podem investir diretamente na sua gestão.

Esse casamento entre política e elite tecnológica desperta desconforto entre os populistas de Trump. Steve Bannon, ex-estrategista do presidente, denuncia o que chama de “oligarquia tecnocrática” infiltrando-se no movimento MAGA. Ainda assim, a aproximação da elite empresarial com Trump indica que os bilionários consideram mais vantajoso estar ao lado do presidente do que contra ele.

Os impactos dessa aliança podem ser profundos. Com um gabinete repleto de bilionários e o apoio das maiores empresas tecnológicas, Trump inicia um governo mais financiado e interligado estrategicamente do que nunca. Se no primeiro mandato os magnatas tentaram contê-lo, agora preferem se aliar, antecipando os benefícios dessa proximidade.

No entanto, o preço dessa relação permanece uma incógnita. Como alerta a historiadora Ruth Ben-Ghiat, especialista em autoritarismo: “Eles podem doar milhões e tudo parecerá bem, mas basta um deslize para que Trump os transforme em inimigos”. Num governo onde os acordos são negociados a portas fechadas, o risco de retaliação é sempre iminente. Para os bilionários do Vale do Silício, este jogo está apenas começando. Quem sairá vencedor nessa nova ordem oligárquica americana?

Palmarí H. de Lucena