O voo dos beija-flores

O voo dos beija-flores

Alguns jardins florescem sobre a terra. Outros florescem na memória. O nosso sempre pertenceu aos dois.

Sentávamo-nos na varanda enquanto a manhã despertava lentamente. O ar alternava a umidade e a secura, trazendo um discreto perfume de maresia. Os sinos de vento mal se faziam ouvir. Das flores recém-regadas desciam gotas que cintilavam por um instante antes de desaparecer na terra escura.

Ali, por algumas horas, o mundo parecia renunciar às suas exigências. O trabalho, os compromissos, as notícias e a sucessão de pequenas urgências perdiam autoridade. A cidade permanecia além dos muros, com o trânsito congestionado, o concreto irradiando calor, ruas malcuidadas e o rumor incessante dos motores. Corria-se tanto que até os afetos pareciam obedecer ao calendário das estações.

No jardim, porém, o tempo seguia outro compasso.

Foi um breve lampejo verde que rompeu a quietude.

Sobre o velho canteiro de roseiras vermelhas — plantadas durante uma das últimas visitas de nossa mãe e desde então transformadas na mais delicada lembrança de sua presença — pairava um beija-flor.

Durante alguns segundos permaneceu absolutamente imóvel.

Não voava.

Habitava o ar.

O pequeno corpo mudava de cor conforme a luz deslizava sobre as penas: verde-esmeralda, azul profundo, reflexos dourados nas extremidades das asas. Estas desapareciam numa transparência vibrante, enquanto o corpo permanecia suspenso diante da flor. Num instante mergulhava entre as pétalas; no seguinte ascendia quase na vertical, descrevendo um arco perfeito antes de regressar ao mesmo lugar. Não parecia desafiar a gravidade. Parecia conviver com ela.

A luz transformava a plumagem num metal vivo. Bastava uma mudança na posição do sol para que o verde se tornasse azul, o azul adquirisse reflexos de ouro e, logo depois, tudo voltasse a ser apenas um lampejo. Os olhos jamais conseguiam acompanhar a transição. O pássaro desaparecia antes que a cor terminasse de nascer.

Talvez por isso os antigos povos das Américas tenham visto nos colibris criaturas situadas entre o mundo visível e o invisível. Para alguns eram mensageiros do sagrado; para outros, símbolos da coragem, da persistência e do renascimento. Não importa. Basta observá-los por alguns instantes para compreender por que atravessaram séculos cercados de fascínio.

Enquanto o beija-flor sorvia o néctar, o jardim parecia prender a respiração. Nem o vento ousava mover as folhas. Havia apenas o delicado zumbido das asas — mais percebido do que ouvido — e aquela improvável suspensão entre a flor e o céu.

Pouco a pouco outros visitantes começavam a chegar.

O jardim despertava com eles.

Pouco depois chegavam os sibites.

Nunca pousavam por muito tempo. Saltavam entre os galhos mais delicados, desapareciam sob as folhas, ressurgiam alguns metros adiante. Pareciam feitos da mesma matéria inquieta do vento. Seu voo não desenhava linhas contínuas; produzia sobressaltos, mudanças bruscas de direção, pequenas explosões de movimento que o olhar mal conseguia acompanhar.

Os bem-te-vis anunciavam a chegada antes de aparecer. O chamado firme atravessava o jardim como a voz de um velho morador certificando-se de que tudo permanecia em ordem. Escolhiam sempre o ponto mais alto — um galho exposto, a ponta do telhado ou um fio elétrico — e dali observavam flores, insetos, frutos e visitantes com paciente autoridade. Esperavam longamente. Depois partiam com a precisão de uma flecha para capturar um inseto distraído, regressando, quase sempre, ao mesmo posto de vigília.

Os sanhaços preferiam a discrição.

Aproximavam-se das pitangas maduras e das jabuticabeiras carregadas, quase sempre em pequenos grupos e em silêncio. Os frutos negros, aderidos diretamente ao tronco, pareciam pequenas contas de obsidiana. Escolhiam uma jabuticaba madura, rompiam-lhe a casca brilhante, permaneciam imóveis por um breve instante e retomavam o banquete. A plumagem azul-acinzentada absorvia a luz da manhã com a elegância discreta das pedras polidas pela água.

À medida que o sol subia, o jardim deixava de ser apenas um jardim.

Convertia-se num pequeno teatro do ar.

Um beija-flor permanecia suspenso diante de uma flor enquanto um sanhaço atravessava lentamente o pomar. Um sibite riscava o espaço como um traço de grafite sobre o azul da manhã. O bem-te-vi mergulhava em curva perfeita para capturar um inseto invisível. Nenhum movimento parecia ensaiado. Ainda assim, todos obedeciam a uma ordem silenciosa.

As trajetórias cruzavam-se continuamente, mas jamais se tocavam.

O ar parecia adquirir matéria.

Linhas invisíveis ligavam flores, galhos, frutos e poleiros, compondo uma arquitetura aérea que apenas as aves pareciam conhecer. Cada uma ocupava seu espaço com absoluta precisão, como se obedecesse a uma partitura escrita muito antes da chegada do primeiro homem àquela paisagem.

Então surgiam dois beija-flores.

Era impossível saber quem perseguia quem.

Um disparava quase na vertical; o outro respondia imediatamente. Cruzavam-se em espirais, afastavam-se por alguns metros, regressavam em mergulhos fulminantes, interrompiam o voo num instante impossível e voltavam a acelerar. O sol incendiava-lhes a plumagem, transformando-os em pequenas fagulhas verdes que riscavam a claridade da manhã.

Por alguns segundos esqueciam as flores.

Pareciam existir apenas um para o outro.

Disputa territorial, cortejo amoroso ou simples exuberância da vida — qualquer explicação se tornava insuficiente diante da perfeição daqueles movimentos. O que víamos era um pas de deux suspenso sobre o vazio, onde o palco era feito de luz, o silêncio marcava o ritmo e o vento parecia mover-se apenas para acompanhá-los.

Nenhuma bailarina pisaria um palco com tamanha leveza.

Nenhum coreógrafo escreveria uma dança tão precisa.

E, no entanto, aquele espetáculo repetia-se quase todos os dias, indiferente aos espectadores, como se a própria natureza ensaiasse, desde tempos imemoriais, uma coreografia destinada apenas aos que ainda conservam a paciência de olhar.

Depois, tão inesperadamente quanto começara, o bailado terminava.

Os beija-flores desapareciam entre as copas dos coqueiros e o dossel da Mata Atlântica. Mais adiante, ingazeiros, paus-d’arco, embaúbas e tantas outras árvores nativas dissolviam seus contornos na luz crescente da manhã. Restavam o perfume das flores, o brilho das folhas ainda úmidas e a delicada impressão de que o ar conservara, invisíveis, os desenhos deixados pelas asas.

O silêncio regressava devagar.

Primeiro voltava o murmúrio da brisa entre as folhas dos coqueiros. Depois, o canto distante de um bem-te-vi. Um galho estremecia, uma folha desprendia-se da embaúba e descia lentamente até a terra. O jardim retomava o seu ritmo, como um lago cuja superfície volta a repousar depois da passagem de um peixe.

As roseiras plantadas por nossa mãe continuavam florescendo a cada estação.

O tempo levara muitas coisas. Levou pessoas, transformou paisagens, alterou costumes, fez desaparecer antigos caminhos. Não conseguiu, porém, apagar a delicadeza daquele gesto: abrir uma cova na terra, acomodar uma muda entre as mãos e confiar ao futuro a promessa de uma flor.

Todos os anos, quando as primeiras rosas se abriam, os beija-flores regressavam.

Chegavam sem alarde. Pairavam por alguns segundos diante das flores, como se reconhecessem um lugar antigo, e logo desapareciam outra vez entre as copas dos coqueiros e o dossel da Mata Atlântica. Nunca permaneceram tempo suficiente para que nos acostumássemos à sua presença. Talvez fosse exatamente por isso que cada encontro conservasse o encanto do primeiro.

Além dos muros, a cidade seguia o seu curso. Os motores continuavam a rugir, os relógios a medir a pressa, o concreto a avançar sobre os últimos vazios. Aqui dentro, porém, outra medida do tempo persistia. Não era a dos calendários, mas a das florações, das chuvas, da luz atravessando as folhas e do retorno das aves.

Com os anos compreendi que um jardim não se cultiva apenas com água e adubo.

Cultiva-se também com espera.

Há uma forma de esperança escondida em cada árvore plantada, em cada roseira podada, em cada bebedouro abastecido antes do amanhecer. Quem cuida de um jardim aceita, sem perceber, um pacto silencioso com o futuro: talvez nem todos os pássaros venham, talvez nem todas as flores se abram, mas ainda assim vale a pena preparar-lhes o caminho.

Foi isso que nossa mãe nos deixou.

Não apenas as roseiras.

Deixou-nos a delicada arte de esperar pela vida.

Às vezes penso que os beija-flores nunca vieram apenas em busca do néctar.

Vieram porque encontraram um lugar onde a beleza ainda era recebida sem pressa.

Depois, tão subitamente quanto chegavam, desapareciam outra vez entre o verde da floresta.

Durante alguns instantes permaneciam apenas o perfume das rosas, o brilho das folhas ainda úmidas e um desenho invisível suspenso no ar.

Então o jardim respirava.

E, com ele, a memória.

Porque alguns jardins florescem sobre a terra.

Os mais raros nunca deixam de esperar pelo próximo voo.

Palmarí H. de Lucena