O Vermelho que Manchou o Turquesa

O Vermelho que Manchou o Turquesa

Visitamos as Seychelles no Natal de 1983, quando a ideia de paraíso ainda parecia resistente a contradições. Vínhamos de Nairóbi — a “cidade verde no sol” — fugindo das chuvas de fim de ano, em busca de um descanso que, à distância, parecia garantido pelas águas turquesa do Índico. Mas, ao sobrevoar Praslin, a paisagem nos ofereceu seu primeiro sinal de alerta: uma grande mancha escura avançava sobre a baía. O piloto nos explicou com calma técnica: era uma maré vermelha, resultado do crescimento excessivo de microalgas. A ameaça pairava sobre peixes, aves e crustáceos. Mesmo em 1983, o paraíso já começava a revelar suas fissuras.

No desembarque, porém, nada parecia fora do lugar. A areia era branca como farinha, o mar não apresentava correntes traiçoeiras, e turistas europeus se distribuíam com a despreocupação típica de quem acredita que a beleza suspende o mundo real. Trabalhadores locais observavam tudo com gentileza profissional, vigilantes mais por hábito do que por preocupação. À noite, a música Sega — mistura de tambores africanos, sanfona e rabeca — animava os visitantes. Havia fumaça doce ao redor dos coqueiros, e mesmo naquela época a tolerância ao uso de cannabis já fazia parte da coreografia turística.

O que não sabíamos, e só compreenderíamos décadas depois, é que por trás dessa leveza existia um fenômeno mais profundo. Hoje sabemos que as Seychelles registram uma das maiores taxas per capita de uso de heroína no mundo. Em 2019, estimou-se que entre 5.000 e 6.000 pessoas consumiam heroína regularmente — quase 10% da população em idade ativa. Apesar das leis severas, 25% dos entrevistados em 2024 afirmaram considerar o “uso e tráfico de drogas” um dos três maiores problemas nacionais. O governo, pressionado por esse quadro, implementou programas de substituição com Metadona e Buprenorfina, numa tentativa de conter uma crise silenciosa que convive lado a lado com o setor turístico.

Essa compreensão transforma a memória de 1983. Lembro-me de uma noite em Praslin, quando voltamos ao bangalô e encontramos uma verdadeira procissão de caranguejos bloqueando o caminho. Fugiam da maré vermelha que começava a contaminar a praia. A travessia exigiu três vigias, que afastavam os crustáceos com uma naturalidade adquirida pela repetição diária. Pela manhã, estavam todos escondidos nos buracos subterrâneos, devolvendo à praia a paisagem “limpa” que os visitantes tanto exigem para continuar acreditando na ficção do Éden.

No interior da ilha, o Vale de Maio parecia imune a tudo isso. As palmeiras Coco de Mer, os aromas de canela e o murmúrio das águas cristalinas criavam uma sensação quase bíblica de origem pura. Mas mesmo esse cenário, perfeito na aparência, carregava uma advertência: nenhum paraíso sobrevive se ignorar suas próprias fragilidades.

Hoje, quando revisitamos mentalmente aquele Natal de 1983, compreendemos que a maré vermelha não era só um fenômeno biológico. Era metáfora. Assim como a toxina das microalgas avança silenciosa pelo oceano, há uma outra maré — social, química e humana — que ameaça os arquipélagos que dependem do turismo para existir. A beleza extraordinária das Seychelles convive com realidades que não aparecem nos cartões-postais: desigualdade, dependência química, tensões económicas e um equilíbrio ambiental cada vez mais frágil.

Ao deixar Praslin naquela manhã luminosa de 1983, ainda acreditávamos que alguns lugares estavam a salvo do mundo. Hoje sabemos: não estão. Toda ilha é vulnerável. Toda beleza tem um limite. E toda maré — biológica ou social — um dia alcança a praia.

Por Palmarí H. de Lucena