Quando penso em Nova York, a memória não começa na Times Square nem nos táxi
s amarelos cruzando a Quinta Avenida. Ela começa na Broadway, numa manhã luminosa de verão, quando o Upper West Side ainda despertava lentamente depois de um inverno que parecia interminável.
Naqueles dias, caminhar era uma forma de pertencer à cidade.
Eu seguia sem pressa, observando as vitrines das pequenas livrarias, os cafés ainda abrindo as portas, os moradores passeando com seus cães e o vaivém discreto de um bairro que sempre me pareceu viver em outro compasso. Manhattan podia ser a capital da velocidade, mas ali havia uma serenidade difícil de explicar.
Antes de chegar ao Central Park, fazia sempre a mesma parada no Zabar’s.
Comprava um café bem quente, um generoso sanduíche de rosbife preparado na hora e um exemplar do The New York Times. Sentava-me por alguns minutos, abria o jornal e deixava que a manhã seguisse seu curso. Enquanto as manchetes disputavam minha atenção, observava a vida do bairro acontecer diante das vitrines. Depois dobrava o jornal, terminava o café e retomava a caminhada.
Seguia pela Broadway até alcançar a Central Park West. Poucos metros adiante erguia-se o imponente American Museum of Natural History. Eu diminuía o passo diante daquelas paredes de pedra. Ali o tempo media-se em milhões de anos. Bastava atravessar a rua para voltar ao tempo das árvores.
Os portões do Central Park marcavam uma mudança quase imperceptível. As buzinas ficavam para trás. O vento conduzia as copas dos olmos, um saxofone surgia ao longe, crianças corriam pelos gramados e os esquilos pareciam ignorar que estavam no centro de uma das maiores metrópoles do planeta.
Nunca escolhia um caminho. Às vezes seguia até a Bethesda Terrace. Em outras, caminhava em direção ao lago, onde pequenos barcos riscavam lentamente a água. Havia artistas pintando, estudantes lendo sob as árvores, corredores concentrados e famílias transformando a Sheep Meadow em quintal por uma tarde inteira.
Eu apenas me sentava. Observava os remadores cruzando o lago, o vento movendo as copas das árvores e a luz desenhando sombras sobre os caminhos. Durante algum tempo, Manhattan parecia esquecer a própria pressa — e eu também.
Voltei muitas vezes ao longo dos anos.
O parque continua belo. Mas os verões passaram a chegar mais quentes. As noites já não refrescam como antes. Vieram os alertas de calor extremo, as tempestades repentinas e as estações de metrô inundadas. A cidade continuava a mesma. O verão, não.
Hoje continuo começando minhas caminhadas na Broadway. Ainda entro no Zabar’s para um café, folheio o The New York Times e sigo até a Central Park West. Ainda diminuo o passo diante do Museu de História Natural antes de atravessar para o parque.
O percurso permanece praticamente o mesmo.
As árvores continuam oferecendo sombra. Os remadores ainda cruzam o lago. Um saxofone insiste em aparecer, de tempos em tempos, como se conhecesse a trilha sonora daquele lugar.
Às vezes volto ao mesmo banco, fecho o jornal e observo a luz atravessar lentamente as copas das árvores.
Nunca encontro exatamente o verão que conheci.
Talvez porque ele continue existindo apenas na memória.
Sempre que penso em Nova York, volto àquela manhã de verão na Broadway.
O café ainda está quente.
As primeiras páginas do The New York Times continuam abertas sobre a mesa do Zabar’s.
E, por alguns instantes, caminho novamente em direção ao Central Park, como se algumas lembranças, ao contrário das estações, nunca deixassem de florescer.
Palmarí H. de Lucena