Há certos costumes que sobrevivem às mudanças de época com uma vitalidade impressionante. Um deles é o hábito de atribuir qualidades morais e intelectuais às pessoas antes mesmo de conhecê-las. Basta ouvir algumas palavras, observar a roupa, notar um sotaque ou um gesto mais espontâneo para que se iniciem avaliações silenciosas.
É um costume antigo, mas ainda muito praticado.
Talvez porque julgar seja mais rápido do que compreender. A compreensão exige tempo, atenção e disposição para rever impressões. O julgamento, ao contrário, oferece respostas instantâneas. Em poucos segundos, construímos uma imagem de quem está diante de nós e, não raras vezes, passamos a enxergar a pessoa através dessa imagem.
Quem entra em uma sala falando de acordo com os padrões considerados elegantes costuma receber atenção imediata. Quem domina o vocabulário esperado é visto como preparado. Quem exibe os sinais certos de refinamento ganha uma espécie de crédito antecipado. O curioso é que nada disso garante inteligência, caráter ou competência. Ainda assim, continuamos agindo como se garantisse.
O mais intrigante é que esse fenômeno raramente se manifesta de forma explícita. Quase ninguém admite que confia mais em determinadas vozes do que em outras. Poucos reconhecem que certos sotaques despertam simpatia enquanto outros provocam desconfiança. No entanto, basta observar uma reunião, uma entrevista de emprego ou mesmo uma conversa informal para perceber como essas distinções continuam operando.
Talvez por isso Pigmalião e My Fair Lady pareçam menos uma ficção e mais uma reportagem de costumes. A história da florista que conquista respeito ao modificar sua forma de falar não descreve apenas uma sociedade distante. Descreve uma prática social que continua circulando entre nós com admirável discrição.
Mudaram as roupas, os cenários e as tecnologias. Os mecanismos, nem tanto.
Hoje, por exemplo, não é raro que alguém seja julgado pela maneira como escreve uma mensagem, pela desenvoltura com que participa de uma reunião ou pela familiaridade com determinadas referências culturais. A impressão inicial continua desempenhando um papel decisivo. Antes mesmo que uma ideia seja examinada, seu portador já foi classificado.
Nas redes sociais, esse processo tornou-se ainda mais veloz. Fotografias, legendas, escolhas estéticas e formas de expressão passaram a funcionar como sinais de pertencimento. Em poucos instantes, formam-se percepções sobre competência, sucesso, educação e até caráter. Muitas vezes, conhece-se a aparência muito antes de se conhecer a pessoa.
O mais interessante é que raramente admitimos esse comportamento. Preferimos acreditar que valorizamos o mérito, a capacidade e o esforço. São princípios nobres e indispensáveis. Entretanto, a observação cotidiana sugere que os símbolos continuam trabalhando em silêncio. Muitas portas se abrem não apenas para quem sabe, mas para quem parece saber.
Talvez porque os símbolos ofereçam uma sensação de segurança. Eles simplificam a realidade. Permitem classificar rapidamente um mundo que é, por natureza, complexo. O problema é que simplificações excessivas costumam ser injustas. Quando transformamos aparência em medida de valor, passamos a ignorar qualidades que exigem convivência para serem percebidas.
É um costume curioso. Exige-se autenticidade, mas recompensam-se aqueles que dominam os códigos socialmente valorizados. Celebra-se a diversidade, mas frequentemente se espera que ela venha acompanhada de modos familiares e confortáveis. Defende-se a igualdade, mas continua existindo uma preferência quase automática por quem fala, se veste e se comporta de acordo com determinados padrões.
Nesse aspecto, a velha história da florista permanece atual. Não porque conte a transformação de uma jovem, mas porque revela uma dificuldade coletiva. Ainda temos o hábito de confundir embalagem com conteúdo, aparência com capacidade, linguagem com inteligência.
Talvez seja um dos costumes mais persistentes da vida social. E também um dos mais injustos. Afinal, a inteligência não possui sotaque. A competência não depende de determinada pronúncia. A dignidade não se mede pelo vocabulário utilizado em uma conversa.
Ainda assim, continuamos procurando sinais externos para identificar qualidades internas. É uma tentação antiga e profundamente humana. Mas também é uma fonte permanente de equívocos.
Afinal, a verdadeira educação deveria ampliar nossa capacidade de compreender as pessoas, não de classificá-las. Deveria ensinar a ouvir o que está sendo dito, e não apenas a forma como é dito.
Mas esse parece ser um aprendizado mais difícil do que imaginamos. Mais difícil, inclusive, do que aprender uma nova pronúncia.
Palmarí H. de Lucena