Folclore…
Palavra mágica.
Chave de encantamento.
Na concha acústica — que chamávamos de casa —
bastava dizê-la… e o ar se enchia de sons e cores.
Cantavam… dançavam… declamavam.
As alpargatas batiam no chão de cimento…
como tambores de esperança.
Pés calejados, espremidos, insistentes…
mas dançavam!
Ali se misturavam menestréis de rua…
índios africanos… cangaceiros… marinheiros de uma nau imaginária.
Todos convivendo sob o mesmo teto:
o audacioso, o sonhador, o absurdo.
Poetas loucos… loucos poetas.
Todos atados — com o barbante invisível —
da cultura do povo.
A realidade se dissolvia em nuvens…
nuvens movidas por cânticos e lamentos
vindos de terras distantes.
E lá estava ele…
Tenente Lucena.
Grand Vizir do pequeno terraço.
Guardião da Sublime Porta do popular e do genérico.
Media as vozes…
acolhia os desvalidos…
organizando sonhos como quem rege uma orquestra de miragens.
Por ali passavam artistas… ex-presidiários…
meninos órfãos… músicos folclóricos…
torcedores do Flamengo… cegos, surdos e mudos.
Todos cabiam na casa do Tenente.
E havia Seu Belarmino —
negro, pobre, ex-presidiário, doente —
um factótum por falta de nome melhor.
Silencioso, respeitoso, leal.
Entre ambos… havia o pacto dos que conhecem a dor.
Partimos… voltamos… partimos outra vez.
Moto perpétuo.
A vida girava sobre si mesma —
como um pião cansado —
diminuindo a cada volta.
Pai e filho.
Dois satélites do mesmo planeta interior.
Ele, na cadeira de balanço…
mãos cruzadas sobre a barriga…
olhos semiabertos.
Duas réstias de luz atravessavam a cortina…
e pousavam no rosto dele —
como bênçãos.
Era ali que o mundo cabia inteiro…
no silêncio de um quintal.
Mas o corpo começou a contar o que as palavras escondiam.
Algo havia mudado…
E duas letras — C A —
se tornaram sentença.
Duas letras do bê-á-bá…
sem a melodia das vozes infantis.
Falamos… longamente.
Sobre a doença.
Sobre o medo.
Sobre o tempo.
Ira e tristeza caminhavam lado a lado.
E decidimos… que nosso próximo encontro seria… na África.
A África — o destino das origens.
Até que um dia… o telefone tocou.
Urgente.
A segurança do hotel:
“Detivemos um homem branco… comportamento suspeito…
Sobrenome: Lucena.”
Era ele.
O Tenente.
Havia penetrado num congresso de líderes árabes e africanos —
contra o colonialismo, o imperialismo, o capitalismo e o apartheid.
O Tenente, levado pelos tambores e pelas cores,
achou que fosse um maracatu.
Entrou sorrindo…
cumprimentou os presentes…
sem perceber o silêncio reverente
de quem ouvia um homem em trajes de beduíno.
O “rei do maracatu” era, na verdade…
Muammar Ghadaffi — o Coronel da Líbia.
E, talvez, o Tenente Lucena tenha compreendido —
melhor que todos ali —
que o mundo é um imenso terreiro,
onde todas as vozes cabem,
desde que cantem juntas.
Por Palmarí H. de Lucena