O Tenente, as Tribos e o Carnaval da Paz

O Tenente, as Tribos e o Carnaval da Paz


Meu pai, o Tenente Lucena, sempre teve uma inclinação discreta para os júris. Não por gosto pelo confronto, mas talvez por acreditar que observar as pessoas — sobretudo quando se julgam umas às outras — ensina mais do que qualquer manual. A experiência começou num júri popular, onde ouviu de um advogado de defesa palavras duras e acusações injustas. Saiu dali contrariado, mas atento: aprendera, cedo, que nem sempre a verdade fala mais alto — às vezes, ela apenas resiste.

Anos depois, essa fama de homem ponderado o levou a uma tarefa inusitada: presidir o julgamento dos blocos carnavalescos da cidade, então organizados como tribos indígenas. Não era apenas um concurso. Era um ritual coletivo, carregado de memória, vaidade e pertencimento. Desfilavam na avenida os Papo-Amarelos, os Tupy-Guaranis, os Africanos, cada qual defendendo sua história como se fosse território. Para muitos, aquele resultado não decidiria apenas um troféu, mas a honra de um ano inteiro.

As fantasias brilhavam, os tambores marcavam o tempo, e por trás da festa havia rivalidades antigas, transmitidas mais pela convivência do que por palavras. O clima era tenso antes mesmo do último bloco cruzar a avenida. Alguém, com rara lucidez, entendeu que seria prudente colocar à frente do júri um homem acostumado à contenção. Chamaram o Tenente.

Concluído o desfile, a inquietação ganhou corpo. Comentários cresceram, desconfianças se espalharam, vozes se elevaram. Um gesto simbólico — a quebra de uma flecha contra a própria coxa — serviu de aviso: a disputa podia ultrapassar os limites da festa. O Tenente percebeu que qualquer decisão estritamente técnica produziria ressentimentos difíceis de conter.

Reuniu os jurados em reservado. Não era hora de regulamentos, mas de responsabilidade. Foi então que propôs uma solução simples e eficaz: declarar empate entre todos os blocos. Todos os campeões. Todos reconhecidos. A proposta foi aceita sem alarde, como se todos soubessem, no fundo, que aquela era a única saída possível.

A paz voltou sem discursos. O carnaval seguiu. Os ânimos arrefeceram. No ano seguinte, como sempre, tudo recomeçaria — com novos desfiles, novas disputas e a mesma certeza de que a festa sobreviveria às diferenças.

Hoje, ao lembrar desse episódio, vejo ali um traço essencial do meu pai. Ele nunca acreditou que a autoridade se afirmasse pelo enfrentamento. Preferia o acordo silencioso, a solução que preserva as pessoas. Talvez por isso tenha entendido, antes de muitos, que em certas ocasiões a melhor justiça não é a que vence, mas a que permite que todos sigam adiante.

Por Palmarí H. de Lucena