O tempo passa

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O tempo passa

Há uma canção cubana que começa com uma constatação tão simples quanto inevitável: “El tiempo pasa y nos vamos poniendo viejos.” A frase parece quase banal, dessas que se dizem à mesa de um café ou durante uma conversa entre amigos. No entanto, quando cantada na voz grave e melancólica de Pablo Milanés, na canção Años, ela ganha o peso suave das verdades que todos reconhecem, mas poucos se atrevem a encarar.

O tempo passa.

Não passa com estrondo, como um trovão que rompe o céu. Passa com a discrição de uma tarde que lentamente se inclina para o entardecer. Passa nos pequenos sinais que quase não percebemos: um fio branco no cabelo, uma fotografia antiga que de repente parece pertencer a outra vida, um amigo que agora caminha um pouco mais devagar.

A juventude acredita que o tempo é um rio distante. Observa-o de longe, como se suas águas jamais chegassem à própria margem. Há sempre algo urgente demais para viver: os sonhos, as viagens, os amores que parecem eternos. O relógio, nesse período da vida, é apenas um detalhe decorativo.

Mas um dia — ninguém sabe exatamente quando — percebemos que o rio já nos atravessa.

É então que certas músicas ganham outro significado. O que antes parecia apenas uma bela melodia transforma-se em espelho. A canção deixa de ser apenas uma canção; torna-se uma espécie de confidência coletiva, como se alguém tivesse colocado em música aquilo que todos sentimos, mas raramente dizemos em voz alta.

Envelhecer não acontece de uma vez. É um processo silencioso, quase elegante. A vida vai retirando algumas ilusões, mas em troca oferece uma forma mais clara de olhar o mundo. Algumas ambições perdem importância. Outras, inesperadamente, tornam-se mais valiosas.

Descobrimos que a pressa, tão reverenciada na juventude, é muitas vezes inimiga daquilo que realmente importa.

Aprendemos a valorizar o que antes parecia banal: o silêncio de uma tarde tranquila, uma conversa sem urgência, o prazer quase esquecido de observar o horizonte sem sentir que estamos perdendo tempo.

Talvez seja por isso que certas canções resistam às décadas. Elas falam menos sobre acontecimentos e mais sobre aquilo que permanece quando os acontecimentos passam.

A música de Pablo Milanés tem essa qualidade rara. Ela não se apoia apenas na melodia, mas numa espécie de sabedoria emocional. Não há revolta na constatação de que envelhecemos. Há apenas uma serenidade quase filosófica, como se o próprio tempo fosse também um professor paciente.

O curioso é que, ao aceitar o tempo, aprendemos também a apreciar melhor o presente.

A juventude, muitas vezes, vive como se houvesse sempre outra oportunidade. A maturidade, ao contrário, sabe que cada momento tem um valor que não se repete. Não se trata de nostalgia, mas de lucidez.

Talvez por isso a frase da canção seja ao mesmo tempo melancólica e reconfortante.

Sim, o tempo passa.

Mas não leva tudo consigo.

Ficam as lembranças que nos moldaram, os afetos que resistiram às estações, as histórias que continuam a nos acompanhar mesmo quando as cidades mudam e os rostos se transformam.

No fim das contas, envelhecer não é apenas perder a juventude. É também acumular vida.

E talvez seja justamente isso que aquela canção cubana sussurra, com delicadeza: que o tempo pode marcar nossos rostos, mas não precisa apagar aquilo que fomos capazes de sentir.

por Palmarí H. de Lucena