O Tempo Parou num Bolero

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O Tempo Parou num Bolero

Havia algo de eterno nas canções que atravessavam a sala quando o rádio tocava Los Panchos. O som parecia suspender o tempo, como se o mundo inteiro respirasse ao compasso de um bolero. Ele — o velho homem de gestos lentos e olhar distante — sorria com aquele sorriso antigo de quem já amou demais, mas ainda acreditava que o amor é a única eternidade possível.

Cantava versos incompletos, em espanhol ou inglês, combatendo as pausas e os hiatos da memória como se fossem os fantasmas da velhice. “Siempre en mi corazón…”, murmurava, e era como se a ausência ganhasse voz, corpo, perfume. Trono de um rei sem rainha, sua poltrona tornara-se palco de um concerto íntimo, onde a solidão se transformava em música.

Os boleros sempre estiveram ali — nas formaturas, nas viagens de trem, nas excursões em que a adolescência acreditava ser possível amar para sempre. Cada estrofe era um abrigo para o coração inquieto. Mais tarde, tornaram-se companheiras da memória, voltando sem serem chamadas, reconstituindo os rostos e os abraços que o tempo dispersou. Ficarão conosco, até que a memória nos separe.

Recordo a primeira vez que dancei um bolero. Não apenas um passo — uma confissão. Os primeiros acordes me puxaram em direção a ela, como se o destino tivesse pés e sapatos de verniz. Os passos rápidos nos levaram até o canto do dancing, e então vieram os lentos, preguiçosos, quase sonâmbulos. O calor crescia sob o tecido da roupa, e o bolero, em sua cadência provocante, ia acalmando o corpo apenas para reacendê-lo logo em seguida.

Foi ali que compreendi: não amávamos pessoas, amávamos a possibilidade do amor. Era uma paixão que beirava o erro — hipócrita porque disfarçada de pureza, perdida porque não cabia no tempo, pecadora porque ousava existir, perfídia porque traía a razão em nome de um instante. E ainda assim, o ritmo nos redimia: éramos inocentes no pecado de sentir demais.

Os boleros sempre souberam o que nós não sabíamos dizer. Traduzem aquilo que não se explica, apenas se sente no toque da pele, no giro demorado, no suspiro que se alonga com a nota do trompete. Amávamos de modo impróprio, movidos por paixões desencadeadas por algo que não sabíamos expressar nem aceitar. Só o som — e o ritmo do bolero — compreendiam o que éramos.

Anos depois, em um salão qualquer, um casal idoso voltava a dançar. Ninguém os conhecia direito, mas todos os observavam em silêncio — os passos simples, a cadência perfeita, o toque delicado de quem aprendeu que o amor não se explica: apenas se dança. Eram como Fred e Ginger de um tempo que não volta mais, conduzidos pela música que resiste ao esquecimento.

Soube-se depois que a vida lhes reservara o mesmo compasso do bolero: ternura e dor entrelaçadas. A filha — a última esperança — partira antes deles, e o casal seguia de mãos dadas pelos corredores do hospital, os olhos marejados, mas ainda com o ritmo nos pés. Quando ela morreu, o jornal anunciou com sobriedade: “Elegância, leveza e paixão a seguiram pela eternidade.”

E é assim que o bolero sobrevive — entre o beijo e o adeus, entre o perdão e o pecado. Ele sopra leve entre violões e trompetes, dança sobre a taça meio cheia e as lembranças meio vivas. E quando a noite cai e o rádio insiste em tocar Sabor a Mí, é como se os que amamos voltassem por um instante, para girar mais uma vez — devagar, infinitamente — no último passo de um amor.

Por Palmarí H. de Lucena