O tempo passa ligeiro,
Sem pedir licença, não,
Vai levando os nossos dias
Pela estrada da estação;
E deixa dentro da gente
Sementes de recordação.
Quando a tarde vai embora,
E a noite vem devagar,
Cada casa acende a luz,
Começa o dia a se calar;
Mas ninguém nota o instante
Que acabou de se apagar.
A vida corre apressada,
Não costuma esperar,
Tem trabalho, tem notícia,
Tem caminho pra trilhar;
E o presente, tão pequeno,
Mal conseguimos enxergar.
Mas o tempo não se apressa,
Nem precisa correr não;
Ele passa silencioso,
Como passa um avião;
E vai deixando no caminho
Pedaços do coração.
Uma foto envelhecida
Pode o tempo revelar:
Um menino que era jovem,
Uma casa, algum lugar,
Gente que estava tão perto
E hoje não pode voltar.
Ninguém sabe, enquanto vive,
Qual momento é despedida;
Qual abraço será o último,
Qual conversa será perdida;
Pois o fim nunca anuncia
Quando muda a nossa vida.
A memória é diferente,
Não arquiva tudo igual;
Guarda um cheiro, uma palavra,
Um instante especial;
E às vezes deixa escapar
O que parecia imortal.
Pode ser uma janela,
Uma música no ar,
Uma chuva numa tarde,
Uma voz a chamar;
São pequenas coisas simples
Que conseguem nos tocar.
O relógio mede as horas,
Marca o tempo sem parar;
Mas a memória escolhe
O que deseja guardar;
Uma hora pode ser breve
E uma vida recordar.
Há lembranças que retornam
Sem ninguém as convidar;
Basta ouvir certa música,
Ver um velho lugar;
E aquilo que estava longe
Volta perto num piscar.
O passado nunca volta
Do jeito que foi um dia;
Volta cheio de outras cores,
De saudade e fantasia;
Pois quem olha para trás
Já mudou sua companhia.
Também mudam nossas ruas,
Nossos nomes, nosso chão;
Mudam casas e costumes,
Muda até a direção;
E ficam algumas marcas
Escondidas na lembrança.
Envelhecer não é somente
Contar anos no papel;
É juntar muitas paisagens
Debaixo do próprio céu;
É carregar várias vidas
Num caminho feito a pé.
E talvez seja esse o tempo
Que ninguém consegue ver:
Ele leva quase tudo,
Mas permite permanecer
Aquilo que, dentro d’alma,
Não queremos esquecer.
Quando a noite enfim domina
E o silêncio toma o ar,
Mais um dia se despede
Sem ninguém o festejar;
Era apenas um dia comum —
Mas não volta ao seu lugar.
Por isso a vida é mistério,
Feita de instante e lembrança:
O presente logo passa,
Mas o passado não descansa;
E aquilo que o tempo leva
Às vezes vira esperança.
Palmarí H. de Lucena