Há transformações que só percebemos quando já nos tornamos parte delas.
Há alguns dias, durante uma conversa com uma pessoa muito querida, surgiu uma pergunta que continuou me acompanhando muito depois de o assunto ter terminado. Ela comentou, quase de passagem, que sempre tivera curiosidade de entender como Antonio Vivaldi conseguira transformar as quatro estações do ano em música. Não era uma pergunta sobre técnica ou composição. Havia nela uma inquietação mais ampla: como aquilo que se vê, se sente e se atravessa ao longo da vida pode encontrar uma linguagem diferente sem deixar de ser reconhecível?
A conversa terminou ali, mas a pergunta não. Durante dias ela voltou à memória sem que eu a chamasse. Aos poucos comecei a desconfiar de que o verdadeiro mistério não estivesse em saber como um compositor traduziu as estações em música, mas em compreender por que a música parece revelar aspectos das estações que a convivência cotidiana acaba tornando invisíveis.
Quando voltei a ouvir As Quatro Estações, procurei escutar menos os efeitos e mais o movimento. Sempre se fala dos pássaros, das tempestades, dos riachos e dos ventos que os instrumentos evocam. Desta vez, porém, chamou-me a atenção outra coisa: nenhuma estação parece disputar espaço com a seguinte. Cada uma chega quando seu tempo amadurece e parte sem resistência, como se soubesse que permanecer não depende de durar, mas de participar de uma ordem maior.
Nenhuma árvore interpreta a queda das folhas como fracasso. Nenhum campo considera o inverno uma derrota da primavera. O rio não lamenta a água que passou. Somos nós que transformamos a mudança em perda e passamos a acreditar que continuar significa conservar a mesma forma.
Talvez seja por isso que nos despedimos tão mal das coisas. Falamos da juventude como quem recorda um país perdido. Observamos o envelhecimento quase sempre pelo que desaparece. Até as cidades costumam ser descritas com nostalgia: “já não são as mesmas”. Quase nunca nos ocorre perguntar se alguma vez deveriam ter permanecido iguais.
Há uma sabedoria discreta em tudo o que amadurece. Ela não faz ruído. Apenas modifica sua maneira de existir. As frutas abandonam o verde sem pedir desculpas. A madeira escurece. As pedras perdem os ângulos. Os rostos ganham uma geografia que a juventude desconhece. Nada disso desmente o que veio antes. Apenas acrescenta outra camada à mesma história.
Também a beleza talvez tenha sido, durante muito tempo, procurada no lugar errado. Aprendemos a reconhecê-la naquilo que permanece intacto e, por isso, tantas vezes deixamos de percebê-la quando assume outra forma. Algumas pessoas já não impressionam pelo brilho, mas pela serenidade. Há presenças que só os anos conseguem compor.
Enquanto a música seguia, compreendi que sua força talvez não estivesse em representar as estações, mas em acolher naturalmente a passagem de uma para outra. Nenhum movimento tenta deter o seguinte. A continuidade nasce justamente dessa sucessão.
Quando a última nota desapareceu, o apartamento voltou ao silêncio de sempre. Pela janela, a luz do fim da tarde já não era a mesma de quando a música começara. Demorei alguns instantes para perceber que a mudança não estava apenas do lado de fora.
Lembrei-me daquela conversa.
Desde então, sempre que volto a ouvir As Quatro Estações, deixo de procurar o canto dos pássaros, o vento ou a chuva. Escuto outra coisa.
Escuto os intervalos.
É neles que a música respira. É neles que uma estação se despede sem alarde para que outra encontre seu lugar.
Talvez seja assim também conosco.
Quase tudo o que permanece atravessou, antes, a silenciosa aprendizagem da transformação.
Palmarí H. de Lucena