O Tamarindeiro de Pau d’Arco

O Tamarindeiro de Pau d’Arco

Há, ao lado da casa onde nasceu Augusto dos Anjos, no antigo Engenho Pau d’Arco, um tamarindeiro que parece ter recebido do tempo uma tarefa que nenhuma placa, nenhum arquivo ou nenhum livro poderia cumprir: permanecer. Não é uma árvore que reivindique importância, nem poderia fazê-lo. As árvores não sabem que certas casas se tornam históricas, que determinados nomes passam a figurar nos livros ou que uma paisagem pode, décadas depois, despertar o desejo de quem procura, entre as coisas que restaram, algum vestígio do passado. O tamarindeiro simplesmente continua ali, submetido às estações, ao sol, às chuvas e ao lento trabalho dos anos. Talvez seja justamente essa ausência de intenção que lhe dê tanta força.

A casa onde nasce um poeta só se torna casa natal depois que o poeta desaparece. Antes disso, é uma casa como tantas outras, atravessada por vozes familiares, tarefas ordinárias, ruídos de portas, mudanças de estação e acontecimentos que ninguém imagina que um dia serão considerados históricos. Para o menino, a casa não possui literatura. Possui quartos, corredores, janelas e o mundo imediato da infância. O mesmo acontece com a árvore. Antes de ser associada à memória de Augusto dos Anjos, ela é simplesmente uma árvore, submetida à chuva e à estiagem, oferecendo sua sombra sem saber que, no futuro, alguém poderá olhar para seus galhos tentando imaginar o tempo em que o poeta ainda era apenas um menino.

Talvez essa seja uma das curiosidades da memória: ela costuma atribuir importância às coisas somente depois que elas já aconteceram. O que era cotidiano transforma-se em relíquia; o que ninguém observava passa a ser fotografado; uma casa que servia à vida diária adquire a solenidade dos lugares históricos. O tamarindeiro, entretanto, não participa dessa mudança de estatuto. Continua obedecendo à natureza enquanto os homens lhe atribuem significados. Cresce quando pode, perde folhas quando chega a estação, oferece frutos, suporta o calor e recebe as chuvas. Sua vida não depende daquilo que sabemos sobre ela.

Isso o aproxima, de maneira curiosa, do universo de Augusto dos Anjos. Sua poesia voltou muitas vezes o olhar para aquilo que a existência humana costuma esconder: a fragilidade do corpo, a transformação da matéria, a doença, a decomposição e a certeza de que toda forma viva está submetida a um processo que não pede consentimento. O poeta fez da matéria uma questão literária. O tamarindeiro, sem produzir uma única palavra, continua vivendo dentro dessa mesma realidade material. Seu tronco envelhece, seus galhos se renovam, suas folhas caem e aquilo que cai retorna à terra. A árvore não precisa explicar esse movimento. Somos nós que, diante dele, inventamos explicações.

Talvez por isso seja desnecessário imaginar que o poeta tenha mantido alguma relação extraordinária com aquela árvore. A tentação de preencher os silêncios da história com cenas bonitas é grande, sobretudo quando se trata da infância de um escritor. Mas a literatura não precisa de lembranças inventadas para produzir emoção. Basta a realidade mais simples: o tamarindeiro estava ali, a casa estava ali, a paisagem estava ali, e um menino nasceu naquele espaço antes que alguém pudesse prever a importância que seu nome adquiriria. A grandeza posterior não modifica a simplicidade original do acontecimento.

Há algo de profundamente humano no desejo de encontrar sinais do passado nas coisas que sobreviveram. Procuramos nos edifícios, nas fotografias, nos móveis, nas árvores e até nas marcas das paredes aquilo que as pessoas não podem mais oferecer: a presença. Sabemos que o poeta morreu em 1914 e que a infância ficou para trás muito antes disso. Sabemos também que nenhuma árvore é capaz de devolver uma pessoa. Ainda assim, diante de uma árvore antiga junto à casa de um escritor, o pensamento estabelece uma ligação que não precisa ser literal para ser verdadeira. A árvore não conserva o homem; conserva o lugar onde o homem esteve.

Essa diferença é importante. A memória não está necessariamente dentro das coisas. Muitas vezes, ela nasce entre as coisas e quem as contempla. O tamarindeiro não carrega, como um arquivo, a imagem de Augusto dos Anjos. É o visitante que, ao vê-lo, aproxima dois tempos que normalmente permaneceriam separados. O presente olha para a árvore e imagina o passado; a árvore permanece no presente sem precisar voltar ao passado. É uma espécie de encontro entre duas maneiras de existir no tempo.

A casa também participa desse encontro, embora de forma diferente. Sendo obra humana, ela sofre mais visivelmente a ação dos anos. Precisa ser cuidada, reparada, preservada. A madeira se desgasta, a pintura perde a cor, as estruturas exigem atenção. A árvore possui outra economia. Também envelhece, evidentemente, mas seu envelhecimento produz crescimento. O mesmo tempo que retira da casa sua aparência original acrescenta espessura ao tronco. A passagem dos anos, na construção, é percebida como desgaste; na árvore, pode ser percebida como experiência.

Talvez seja essa a imagem mais adequada para aquele lugar: uma casa e uma árvore envelhecendo de maneiras diferentes, mas submetidas à mesma passagem do tempo. A casa conserva as marcas dos homens; a árvore, as marcas das estações. Uma guarda a memória de quem passou; a outra, o lento testemunho da natureza. Entre ambas nasceu um poeta que haveria de transformar em linguagem a matéria do mundo: a casa, abrigo precário da vida; a árvore, presença silenciosa de uma existência que cresce, envelhece e, um dia, se entrega novamente à terra.

O curioso é que a árvore não precisa ser eterna para produzir a impressão de eternidade. Basta ter sobrevivido aos homens que a conheceram. A duração humana é curta demais para compreender a duração de certas árvores. Uma pessoa envelhece acompanhando o próprio rosto; uma árvore envelhece sem espelho. O homem percebe a passagem do tempo porque perde alguma coisa a cada etapa; a árvore parece aceitá-la como parte de seu crescimento. Talvez seja por isso que sua presença diante da casa tenha algo de sereno, mesmo quando nos lembra a morte.

A morte, aliás, não está ausente de uma árvore antiga. Está inteira nela: nos galhos que secaram, nas folhas que caíram, na madeira que se formou depois de tantas perdas. A árvore não é o contrário da morte; é uma das formas de convivência com ela. Continua produzindo vida sobre uma matéria que já contém o desgaste dos anos. Nesse sentido, sua presença junto à casa natal de Augusto dos Anjos parece menos uma decoração da paisagem do que uma coincidência particularmente expressiva. O poeta encontrou na matéria uma linguagem para falar do destino humano; a árvore, sem linguagem, encena esse destino diante de nós.

Talvez seja também por isso que uma árvore antiga diante de uma casa histórica produza uma impressão diferente daquela causada por uma placa comemorativa. A placa afirma: aqui aconteceu alguma coisa. A árvore sugere que alguma coisa ainda acontece. Sua sombra não pertence a nenhuma época. Cai hoje sobre o mesmo chão onde caiu sobre pessoas que já desapareceram. Nesse sentido, o tamarindeiro não é apenas uma lembrança de Augusto dos Anjos; é uma maneira de perceber que o passado não está inteiramente atrás de nós. Algumas vezes, ele permanece materialmente ao nosso lado, envelhecendo conosco.

Há uma certa justiça nessa presença. O poeta procurou na palavra uma maneira de enfrentar aquilo que desaparece; a árvore encontrou apenas duração na própria natureza. A poesia depende de leitores para continuar viva, enquanto a árvore depende de água, solo e luz. Uma precisa ser interpretada; a outra precisa apenas sobreviver. No entanto, ambas enfrentam a mesma questão, ainda que por caminhos diferentes: como permanecer quando tudo está condenado a passar? Augusto dos Anjos respondeu com a linguagem, fazendo da matéria perecível matéria poética. O tamarindeiro responde com sua própria existência, renovando folhas sobre um tronco que já carrega muitos anos.

Talvez seja por isso que quem chega à casa de Pau d’Arco em busca de Augusto dos Anjos possa acabar encontrando a árvore. Não há nisso nenhuma diminuição da literatura. Pelo contrário. É como se a paisagem lembrasse que nenhum escritor nasce sozinho, isolado de sua terra, de sua casa, de seus ruídos, de suas árvores e das formas particulares de luz que conheceu antes de aprender a escrever. Antes de existir o poeta, havia o lugar; antes do verso, havia a paisagem; antes da obra, havia uma casa junto a um tamarindeiro.

E, no entanto, o visitante não deve esperar que o passado esteja esperando por ele. Os lugares históricos costumam ser visitados com demasiada reverência, como se o tempo pudesse ser encontrado intacto atrás de uma porta ou de uma placa explicativa. Mas o passado não fica parado. Está misturado à poeira da estrada, ao calor, às mudanças da paisagem, às reformas da casa e ao crescimento de uma árvore que não interrompeu sua vida para servir de testemunha a ninguém. É preciso permanecer algum tempo diante de um lugar para perceber que a história não espera o visitante; ela continua envelhecendo.

O tamarindeiro é a parte mais convincente dessa história porque não parece interessado nela. Não foi plantado para representar Augusto dos Anjos, embora agora faça parte da memória de sua casa. Não se tornou árvore literária por escolha própria. Apenas sobreviveu o bastante para que os homens lhe atribuíssem esse papel. E talvez seja essa a maneira mais honesta de uma paisagem participar da literatura: sem saber que participa.

Quando se deixa o Engenho Pau d’Arco, a casa vai ficando para trás e, com ela, a árvore. A estrada retoma sua importância, o calor volta a ocupar o carro, a paisagem se abre novamente e o nome do poeta retorna ao lugar de onde o visitante o trouxe: os livros. É possível que, depois de alguns quilômetros, a imagem da casa comece a perder nitidez. A memória faz isso. Conserva algumas coisas e abandona outras sem explicar o critério.

O tamarindeiro, entretanto, permanece na lembrança de uma maneira curiosa. Não como símbolo, nem como monumento, mas como uma árvore que estava ali quando o poeta ainda não era poeta e continuou ali quando já não havia poeta algum para voltar àquela casa. Entre essas duas condições está quase toda a história que importa. A árvore não fala pelo poeta, não explica sua obra e não oferece respostas sobre sua vida. Ela apenas ocupa o espaço em que o passado e o presente se encontram, com a tranquilidade de quem não sabe que está sendo observado.

Talvez seja esse o privilégio das árvores antigas: elas não precisam conhecer o passado para sobreviver a ele. Nós, ao contrário, precisamos viajar até o passado, procurar uma casa, reconhecer uma paisagem e parar diante de uma árvore para descobrir que o tempo esteve trabalhando ali o tempo inteiro. A árvore fica, não porque tenha vencido o tempo, mas porque, por algum período, conseguiu acompanhá-lo. Depois, seguimos viagem com a impressão de ter encontrado o poeta quando, na verdade, encontramos uma paisagem que ainda sabe permanecer depois dele.

E talvez seja justamente aí que a crônica termina e começa outra coisa: a compreensão de que a memória não é feita apenas daquilo que os homens conseguem conservar. Às vezes, ela depende de uma árvore, de uma casa e de um lugar que continuaram existindo o suficiente para que alguém, muitos anos depois, pudesse chegar, olhar e reconhecer, na sombra de um tamarindeiro, não a presença de um morto, mas a passagem de uma vida pela terra.

Palmarí H. de Lucena