Era noite na Islândia.
O frio vinha suave, cortante, mas limpo —
sem neve, sem geada, apenas o hálito do vento
desenhando círculos no vidro do pequeno veículo.
Éramos um grupo de viajantes, recolhidos ao silêncio,
cada um abrigando no peito o mesmo pressentimento:
a esperança de ver o invisível,
de tocar o que só existe na fronteira entre o sonho e o real.
Reykjavík dormia atrás de nós.
As luzes se dissolviam pouco a pouco,
como brasas que o horizonte apagava.
O guia falava baixo —
sua voz tinha o ritmo das sagas,
como se narrasse um segredo herdado do fogo e do gelo.
Sabíamos que a Aurora é filha do Sol e da Terra,
mas ali, na solidão das planícies,
a ciência não tinha importância:
era o mistério quem nos guiava.
A primeira parada foi em um campo aberto,
onde o vento fazia o ar vibrar,
como se afinasse um instrumento invisível.
Esperamos.
O céu parecia respirar,
contendo algo que ainda não se revelava.
Nada aconteceu.
Seguimos.
O carro deslizava pela estrada escura,
e o tempo, cúmplice, esticava-se como um véu.
De repente, o guia ergueu o braço —
e todos olhamos.
No alto, um traço verde tímido rasgava o firmamento.
Depois, cintilações vermelhas,
como pequenas promessas.
A noite, então, começou a cantar.
As cores se moviam como véus de seda soprados por deuses,
se entrelaçando em danças lentas,
ora se escondendo, ora explodindo em brilho.
O frio cessou de importar.
O silêncio tinha outra textura —
era de reverência, não de ausência.
O mundo parecia respirar conosco,
como se houvesse entre nós e o céu um pacto antigo.
Não sei quanto tempo durou.
Talvez uma hora. Talvez um milênio.
Quando o último rastro se apagou,
ficou apenas uma sensação leve,
um calor que não vinha do corpo,
mas de algo aceso por dentro —
como se a Aurora Boreal, ao passar,
tivesse deixado em cada um de nós
um fragmento da sua alma luminosa.
Por Palmarí H. de Lucena