O Som da Solidão

O Som da Solidão

A solidão possui uma sonoridade própria. Não é o silêncio absoluto, tampouco a ausência de vozes. É algo mais delicado: um murmúrio que atravessa os dias, semelhante ao vento entre galhos antigos, ao estalar discreto da madeira numa casa adormecida ou ao eco de passos que desaparecem ao final de um corredor. Quase imperceptível, ela permanece.

Nas grandes cidades, a solidão raramente veste as roupas do isolamento. Circula entre avenidas movimentadas, ocupa mesas de cafés, acompanha passageiros em estações e elevadores. Habita apartamentos iluminados durante a madrugada, quando as janelas acesas parecem constelações dispersas sobre fachadas de concreto. Cercada de presenças, a vida contemporânea continua a produzir ausências.

Talvez por isso a literatura jamais tenha deixado de retornar a esse tema. Em diferentes épocas e geografias, a solidão surge como paisagem interior. Aparece nos personagens que observam a chuva atrás dos vidros, nos viajantes que percorrem estradas intermináveis e nas figuras que contemplam o horizonte sem esperar resposta. Mais do que um estado de espírito, ela se torna uma forma de percepção.

Em O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata, a solidão se manifesta com a delicadeza das coisas que envelhecem. Não há grandes rupturas nem acontecimentos extraordinários. Existem apenas os dias, o passar das estações, os vínculos que se transformam e a consciência gradual de que o tempo altera tudo aquilo que toca. A montanha permanece. As pessoas mudam.

É nesse ponto que a solidão encontra a memória. Fotografias esquecidas em gavetas, cartas amareladas, livros que conservam marcas de leitura e cadeiras que permanecem vazias transformam-se em pequenos arquivos da passagem humana. Os objetos silenciam, mas continuam narrando histórias. Guardam aquilo que o tempo não conseguiu apagar completamente.

Há também uma geografia da solidão. Ela se revela no mar observado ao entardecer, na névoa que cobre as montanhas, nas folhas que caem sem testemunhas e nos jardins que florescem apesar da ausência de quem os contemplava. A natureza parece compreender aquilo que frequentemente escapa às palavras: a coexistência entre permanência e mudança.

No imaginário contemporâneo, acostumado à velocidade e à conexão permanente, a solidão continua a exercer um fascínio discreto. Talvez porque ela represente um dos poucos territórios onde ainda é possível ouvir o ritmo mais lento das coisas. Quando o ruído diminui, surgem detalhes antes despercebidos: a luz deslocando-se pela parede, o relógio marcando as horas, a tarde inclinando-se lentamente para a noite.

Longe de constituir apenas uma experiência de perda, a solidão revela outra dimensão da existência. Ela não elimina o mundo; ao contrário, torna-o mais visível. Sob sua influência, os gestos mínimos adquirem densidade, as lembranças recuperam contornos e o tempo deixa de ser apenas sucessão para tornar-se presença.

Talvez esse seja o seu verdadeiro som. Não uma voz, nem um chamado. Apenas uma ressonância contínua, semelhante àquela que parece vir das montanhas distantes. Um som quase invisível, mas persistente, que acompanha a travessia humana e recorda, com delicada insistência, que toda vida é feita de encontros passageiros, memórias duradouras e silêncios que nunca desaparecem por completo.

Palmarí H. de Lucena