O Silêncio que o Vento Não Conta

O Silêncio que o Vento Não Conta

A apresentação do acadêmico José Octávio de Arruda Mello, durante a homenagem póstuma a Eilzo Nogueira Matos na Academia Paraibana de Letras, trouxe à tona memórias de um sertão que eu acreditava conhecer, mas que muitas vezes me chegara romantizado — e até distorcido — pela literatura paternalista ou pelo excesso de bravura cultivado por certos narradores. O sertão revelado nos livros de Eilzo Nogueira Matos, porém, surgia com outra densidade: não o da épica exagerada nem o dos mitos heroicos cristalizados pela tradição oral, mas um território profundamente humano, tecido por silêncios, perdas, afetos e sobrevivências.

Não era o sertão reduzido apenas à seca, ao cangaço ou às vinganças familiares. Era um sertão habitado por homens e mulheres de carne e osso, marcados pela dureza da vida, mas também pela capacidade de resistir sem perder completamente a delicadeza da alma. Nas palavras evocadas naquela noite havia menos espetáculo e mais verdade; menos folclore e mais humanidade. A paisagem sertaneja reaparecia livre dos exageros épicos que tantas vezes obscurecem sua dimensão moral e existencial.

Foi impossível não recordar, nesse percurso de memória, os ensinamentos da acadêmica professora Ângela Bezerra de Castro e sua leitura singular de Guimarães Rosa, que nos ensina que Rosa não se decifra; atravessa-se. Sua leitura acolhe o mistério da linguagem rosiana sem a pretensão de aprisioná-la em fórmulas críticas ou interpretações definitivas. Há, em sua visão, menos desejo de explicar e mais disposição para escutar os silêncios escondidos entre as palavras, como quem compreende que o sertão de Rosa não se revela pela pressa da razão, mas pela delicada travessia da sensibilidade e do encantamento.

Essa compreensão amplia o próprio significado do sertão. Em Rosa — e na reflexão da acadêmica — o sertão deixa de ser apenas geografia para tornar-se experiência interior, espaço simbólico onde o homem se confronta com seus limites, seus medos, suas culpas e sua busca de transcendência. As veredas rosianas não conduzem apenas a destinos físicos; conduzem sobretudo ao desnudamento da condição humana.

Aprendi cedo que o silêncio do sertão guarda histórias que o vento não conta. Histórias de homens endurecidos pela seca, pela honra e pela necessidade de sobreviver. Durante muito tempo, naquelas terras, a vingança parecia um sobrenome herdado de pai para filho, como se o sangue derramado exigisse sempre outro sangue para descansar. Talvez por isso as reflexões despertadas naquela homenagem tenham encontrado ressonância tão profunda: porque nelas estava o sertão real, distante da retórica heroica e mais próximo da dor silenciosa das famílias e das consciências.

Foi inevitável recordar também a figura de Padre Chico Pereira e a força moral presente em Vingança Não. O padre parecia compreender, antes de muitos, que o ódio nunca se encerra quando encontra resposta; apenas muda de endereço e continua habitando gerações, como uma herança invisível transmitida pelo ressentimento. Conhecia o peso das injustiças e a tentação humana do revide, mas escolheu outro caminho — talvez o mais difícil de todos: desarmar o espírito.

Há homens que empunham armas para provar coragem. Outros revelam bravura maior ao impedir que a violência continue vivendo dentro deles. Padre Chico sabia que perdoar não significava esquecer, tampouco aceitar a injustiça passivamente. Significava preservar a alma da corrosão do ódio. Talvez resida aí uma das mais altas expressões de coragem produzidas pelo sertão: interromper o ciclo invisível da violência antes que ele transforme a dor em herança permanente.

A lição de Vingança Não se aproxima, de maneira silenciosa e profunda, da travessia humana presente em Guimarães Rosa. Em ambos, o homem não se define pela força bruta nem pela glória exterior, mas pela capacidade de atravessar suas próprias sombras sem abdicar inteiramente da humanidade. O sertão, afinal, não é apenas um lugar do mundo — é também uma condição da alma.

Vivemos hoje cercados de pequenas vinganças cotidianas, intolerâncias e ressentimentos silenciosos. Mudaram as cidades, mudaram os discursos e as formas de violência, mas a alma humana continua atravessando os mesmos desertos morais. Em tempos marcados pela brutalidade e pela polarização, escolher a reconciliação permanece sendo um gesto de rara coragem e talvez a mais difícil das travessias.

Ao final daquela homenagem na Academia Paraibana de Letras, tive a sensação de reencontrar um Brasil profundo — não o sertão inventado pelos excessos da ficção heroica, mas aquele que permanece vivo na memória, na oralidade e na experiência humana dos que aprenderam a transformar sofrimento em permanência, dignidade e esperança. Talvez seja esse o sertão que nem o vento consegue apagar: o que continua existindo, silenciosamente, dentro de nós.

Por Palmarí H. de Lucena