Há um canto da cidade onde o verde resiste — uma fronteira silenciosa entre o Atlântico e o concreto. A Mata do Altiplano do Cabo Branco sempre foi mais do que um fragmento de vegetação: é a memória viva de um ecossistema que sustentou ventos, pássaros e equilíbrio. Mas o que hoje se vê ali é o avanço da indiferença, a lenta mutilação de um patrimônio que deveria ser intocável.
Desde maio de 2019, deslizamentos de encosta se repetem naquela área sem que a Prefeitura de João Pessoa (PMJP) adote qualquer medida para mitigar os danos ambientais. A natureza foi deixada sozinha com a ingrata tarefa de se regenerar. A cerca que antes protegia a mata, na altura da Rua Desportista José Eduardo de Holanda, está praticamente destruída. O que antes era uma barreira simbólica de respeito transformou-se em ruína e descaso.
Entre os troncos retorcidos e o mato alto, abriram-se picadas por onde circulam usuários de drogas, cortadores de árvores e prostitutas — todos amparados pelo olhar ausente da polícia ambiental e dos fiscais da prefeitura. A floresta, outrora abrigo de vida, tornou-se território de abandono. O risco de incêndio cresce a cada dia, e o silêncio do poder público parece uma autorização tácita para que a destruição continue.
Enquanto isso, o prefeito percorre o estado em busca de votos para sua candidatura ao governo. Sua plataforma política, porém, está manchada pela cumplicidade com aqueles que destroem o meio ambiente. Sob o pretexto de “gerar empregos”, “estimular o turismo” e “promover o desenvolvimento econômico”, ergue-se um biombo retórico para encobrir a devastação que se espalha pela cidade — um projeto sustentado pela especulação imobiliária, pelo turismo predatório e pelo descaso com a qualidade de vida dos residentes.
Essas palavras — outrora nobres — tornaram-se desculpas convenientes para justificar o inaceitável. Basta andar por João Pessoa para perceber: o trânsito é caótico, as calçadas continuam inacessíveis a pessoas com deficiência, o barulho ensurdecedor das motos e das caixas de som transformou a paz urbana em ficção. Operadores de turismo estacionam onde bem entendem, e a calçadinha — símbolo da convivência democrática junto ao mar — é invadida por hordas de turistas bate-e-volta que nada deixam além de lixo e ruído.
O Altiplano do Cabo Branco, antes sinônimo de horizonte e brisa, converte-se lentamente num labirinto de concreto. As aves migram, as nascentes secam, o solo cede. E nós, cidadãos, assistimos a essa devastação como se fosse inevitável — como se o verde fosse um luxo, e não um direito.
A crônica dessa omissão ainda está sendo escrita, mas não pelas mãos dos poetas ou dos cronistas: é o som das motosserras, das buzinas e das promessas ocas que a dita, com o aval do silêncio oficial.
Quando a última sombra da mata desaparecer e o último espaço público for tomado, talvez seja tarde demais para perceber que, ao permitir que a natureza e a cidade fossem destruídas, deixamos que parte da alma de João Pessoa fosse levada junto.
Por Palmarí H. de Lucena