O Segundo Tempo

O Segundo Tempo

No Brasil, o árbitro apita o fim da partida apenas para cumprir uma formalidade. O jogo, de verdade, ainda nem começou.

Enquanto o goleiro recolhe as luvas e um menino insiste em pedir autógrafo na saída do túnel, alguém já recorta um frame da transmissão. Outro aumenta a testa do treinador. Um terceiro encontra a legenda perfeita para aquele atacante que conseguiu acertar justamente o único lugar onde o gol não estava. Em poucos minutos, um lance que nasceu efêmero ganha a estranha vocação das coisas destinadas a permanecer.

É assim que nasce um meme.

Não nasce de um computador. Nasce de uma arquibancada que aprendeu a contar histórias.

Durante décadas, as torcidas brasileiras fizeram literatura oral sem saber. Eram apelidos inventados na mesa do bar, exageros repetidos no ponto de ônibus, casos que cresciam um pouco a cada rodada. A internet apenas acelerou um costume antigo. O que antes atravessava o bairro em uma semana agora atravessa o país em poucos segundos.

Talvez o meme seja o folclore da era digital.

Ele transforma um escorregão em personagem, um olhar perdido em comédia, um gol improvável em memória coletiva. Não pede autorização aos protagonistas nem licença ao calendário. Vai passando de celular em celular até que o próprio jogo pareça ter sido disputado apenas para justificar aquela piada.

O curioso é que ninguém conhece melhor essa regra do que o torcedor.

Ele ri como quem jamais perderá outra partida. Dois domingos depois, abre o telefone com a cautela de quem desconfia da própria sorte. A internet o espera com a serenidade dos velhos cobradores: toda provocação será paga, com juros e atualização monetária. A bola gira. O meme também.

Existe nisso uma sabedoria que talvez tenha escapado aos cientistas políticos.

O futebol brasileiro descobriu que a rivalidade pode sobreviver sem destruir o rival. Afinal, não existe clássico de um time só. O prazer da vitória depende da permanência daquele que, inevitavelmente, voltará a vencer um dia. A provocação só faz sentido porque pressupõe reencontro.

Nossa política parece ter desaprendido essa lição elementar.

As divergências deixaram de ser disputas para se tornarem certidões de ódio. O adversário já não é alguém a ser convencido ou contestado. É alguém cuja existência incomoda. Perdemos o humor e, com ele, perdemos também uma forma discreta de reconhecer a humanidade do outro.

Talvez precisássemos de um pouco mais da inteligência irreverente das arquibancadas. Não da violência que às vezes as contamina, mas daquela criatividade quase infantil que prefere uma piada a um insulto, uma caricatura a uma condenação, uma gargalhada ao ressentimento.

Porque rir possui uma virtude democrática: exige reconhecer que ninguém permanece invencível por muito tempo.

Os campeonatos acabam. Os governos também. Os ídolos envelhecem. Os memes desaparecem na velocidade com que surgiram. O que permanece é outra coisa, menos barulhenta e mais importante: a disposição de continuar dividindo a mesma arquibancada com quem torce por um resultado diferente do nosso.

Talvez a democracia seja exatamente isso.

Um estádio onde ninguém concorda sobre o placar, todos discutem o juiz e, apesar das vaias, das derrotas e das provocações da segunda-feira, cada um sabe, no fundo, que o próximo jogo só faz sentido se o adversário também aparecer para jogar.

Palmarí H. de Lucena