O Sambista Infernal em São Francisco

O Sambista Infernal em São Francisco

Naquele verão, San Francisco parecia acreditar que a música podia mudar o mundo. Enquanto o bairro de Haight-Ashbury pulsava ao som das guitarras elétricas da geração hippie, na Mission District a revolução tinha outro ritmo. Era o bairro dos latino-americanos, dos mexicanos, centro-americanos, chilenos, porto-riquenhos, brasileiros e tantos outros que haviam cruzado fronteiras em busca de trabalho, liberdade ou simplesmente de uma vida possível.

Ali, os idiomas se misturavam como os aromas das cozinhas. Das janelas escapavam boleros, rancheras, sambas e tangos. Os murais coloridos falavam de esperança, resistência e exílio. Meu pequeno apartamento fazia parte desse universo improvisado, onde uma panela de feijoada podia, por algumas horas, substituir a pátria distante.

Naquele domingo, o apartamento exalava o aroma denso da feijoada que fervia lentamente desde a manhã. O alho dourado, a cebola, o feijão preto e as carnes enchiam a casa de um perfume que parecia dissolver a distância entre San Francisco e o Brasil. Sobre a mesa havia uma toalha de plástico já bastante usada, copos diferentes uns dos outros, pratos emprestados dos vizinhos e uma luminária presa precariamente por um fio pendurado no teto. Nada era elegante, mas tudo era acolhedor.

As vozes se confundiam entre risos, lembranças e improvisos musicais. Longe do Brasil, tentávamos recriar, por algumas horas, o calor de uma mesa familiar.

A cantora gaúcha chegou atrasada, como era seu costume. Entrou sorrindo, trazendo ao lado um homem negro de meia-idade, de estatura discreta, olhar vivo e um pandeiro debaixo do braço.

— Quero apresentar a vocês o Caco Velho… o Sambista Infernal.

O apelido provocou surpresa e alguns sorrisos. Pouco depois alguém lembrou tê-lo visto numa antiga chanchada da Atlântida, Carnaval Atlântida. O constrangimento desapareceu imediatamente. Abrimos espaço na sala quase por instinto.

Caco não precisou de apresentações. Sentou-se, bateu levemente na caixa de fósforos, afinou o pandeiro com a palma da mão e começou a cantar.

O apartamento transformou-se. Não era apenas música. Era um samba que parecia nascer da respiração. As paredes estreitas desapareceram. O ritmo contagiou brasileiros e americanos presentes na roda. Alguns tentavam acompanhar com palmas fora do compasso; outros apenas sorriam, encantados com aquela explosão de alegria.

Durou pouco. Batidas secas interromperam o samba. Eram os vizinhos. O volume era alto demais para um prédio acostumado ao silêncio dominical. A música cessou de repente. Restou apenas o cheiro da feijoada e um silêncio constrangido.

Caco sorriu com resignação. Parecia acostumado a interrupções. Foi então que começou a contar sua história.

Estava tentando reconstruir a vida nos Estados Unidos, sobrevivendo de pequenos trabalhos e de apresentações ocasionais. O mercado musical havia mudado. Os americanos conheciam o Brasil através da bossa nova de João Gilberto, Tom Jobim e Astrud Gilberto. O samba de terreiro de Caco encontrava menos espaço.

Ele nunca falou isso com amargura. Apenas comentou: “A bossa nova fala baixo… eu só sei tocar quando o coração grita.” A frase ficou gravada em minha memória.

Tentamos ajudá-lo. Um amigo conseguiu convencer o proprietário de um pequeno restaurante italiano, no centro de San Francisco, a organizar uma apresentação. Na noite marcada, a casa encheu. Brasileiros, latino-americanos e curiosos americanos descobriram um samba diferente daquele que conheciam. Caco brilhou. Cantou, improvisou e transformou o restaurante num pedaço do Rio de Janeiro.

Mas a magia durou apenas uma noite. O proprietário explicou que não poderia repetir o espetáculo por causa das exigências sindicais e das licenças municipais. Pouco tempo depois, Caco partiu para o sul da Califórnia levando uma pequena mala, algumas roupas, o inseparável pandeiro e muita esperança. Nunca mais o encontrei. Anos depois soube que havia regressado ao Brasil, onde morreu em 1971, praticamente esquecido.

Sempre achei injusto esse esquecimento. Entre suas obras, nenhuma me comove tanto quanto Mãe Preta, composta em parceria com Piratini. A canção é um dos mais profundos retratos da escravidão na música brasileira. Sua melodia atravessou o Atlântico, recebeu nova letra de David Mourão-Ferreira e tornou-se Barco Negro, imortalizada por Amália Rodrigues. O mundo consagrou o fado; o samba permaneceu quase anônimo.

Hoje compreendo que a verdadeira importância daquela noite não estava apenas na música. Estava na mesa. Na panela de feijoada. Na amizade. Na solidariedade espontânea entre emigrantes. Cada brasileiro que vive longe da sua terra sabe que preparar uma feijoada é muito mais do que cozinhar. É reconstruir a memória.

Quando escuto Mãe Preta, volto ao meu pequeno apartamento na Mission District. Vejo novamente a toalha de plástico, os copos desiguais, o vapor subindo da panela, a cantora gaúcha entrando pela porta e Caco Velho acomodando o pandeiro sobre o colo antes de fazer nascer um samba que transformou um modesto apartamento de imigrantes no coração do Brasil.

Talvez ninguém mais se lembre daquela roda de samba interrompida pelos vizinhos. Eu me lembro. E enquanto essa memória permanecer viva, Caco Velho continuará entrando pela porta daquele apartamento da Mission District, sorrindo discretamente, trazendo debaixo do braço o seu pandeiro e lembrando que o samba é uma forma de resistência, de memória e de voltar para casa, mesmo quando a casa está a milhares de quilômetros de distância.

Palmarí H. de Lucena