Há silêncios que cabem na palma da mão — e sofrimentos que nenhuma tela consegue traduzir.
É curioso o modo como escolhemos nossos culpados. Quando uma criança se fecha no quarto, mergulhada na luminosidade azul de um celular, logo encontramos um réu para nossas inquietações: a tela. Pequena, onipresente, sedutora, ela parece reunir os temores de uma época que já não sabe muito bem como educar os filhos, administrar o tempo ou conviver com a angústia de não ter respostas para tudo.
O diagnóstico costuma ser rápido. O veredicto, definitivo. Confisca-se o aparelho, estabelecem-se horários, multiplicam-se advertências. Por alguns instantes, experimentamos a reconfortante sensação de ter feito alguma coisa. Afinal, é mais fácil combater um objeto visível do que compreender uma dor que não se deixa ver. Mas e se estivermos olhando para o lugar errado?
O psiquiatra infantil Jonathan Slater, em artigo publicado no The New York Times, propõe uma reflexão necessária: a saúde mental de crianças e adolescentes não pode ser reduzida à quantidade de horas diante das telas. Em certos casos, o uso compulsivo pode expressar um sofrimento anterior, relacionado à ansiedade, à depressão, a dificuldades de atenção ou a outras circunstâncias que exigem investigação e cuidado. O aparelho deixa de ser apenas entretenimento e pode tornar-se refúgio, anestesia, esconderijo. Essa hipótese não autoriza diagnósticos à distância; recomenda, antes, que o comportamento seja compreendido em seu contexto.
Isso não absolve a tecnologia de seus riscos. As redes sociais podem alimentar comparações cruéis; o uso compulsivo pode comprometer a vida escolar e as relações afetivas; conteúdos inadequados exigem atenção. O equívoco está em imaginar que o tempo, contado em minutos, seja suficiente para explicar a complexidade de uma infância.
Há crianças que passam horas conectadas por diversão. Outras parecem não conseguir se desligar porque, quando a tela se apaga, alguma inquietação retorna. Nem toda criança diante de um celular está sofrendo; tampouco podemos ignorar que, para algumas, a compulsão talvez seja a parte visível de uma história que ainda não encontrou escuta. O gesto é o mesmo: um dedo desliza, uma imagem desaparece, outra surge. Mas as razões por trás desse movimento podem ser profundamente diferentes.
Talvez uma menina procure, entre fotografias editadas, a confirmação de que merece ser amada. Talvez um adolescente prefira o mundo previsível de um jogo à experiência incerta de uma escola onde se sente inadequado. Talvez uma criança encontre na sucessão de vídeos uma maneira de não pensar no que a entristece. São possibilidades, não diagnósticos. Por isso, exigem algo mais difícil do que condenação: atenção.
A infância raramente apresenta o sofrimento com a eloquência dos adultos. Nem sempre sabe dizer “estou ansioso” ou “não consigo lidar com o que acontece comigo”. Às vezes, fala por meio da irritação, do isolamento, da queda no rendimento escolar, da insônia ou de uma dependência aparentemente inexplicável. O que parece desafio pode esconder dificuldade; o desinteresse pode ser exaustão; a birra pode exigir investigação cuidadosa.
Não devemos transformar todo mau comportamento em sintoma nem substituir a educação por vigilância emocional permanente. Crianças precisam de limites, convivência, movimento, sono, brincadeiras e contato com o mundo além dos dispositivos. Precisam aprender que nem todo desejo deve ser atendido imediatamente e que a vida não oferece a gratificação instantânea de uma tela. Mas limites não são sinônimo de compreensão, assim como proibição não equivale a cuidado. É possível retirar um celular sem alcançar a angústia que o tornou indispensável.
A questão ultrapassa a família. Não se pode exigir que pais exaustos sejam, sozinhos, psicólogos, educadores e intérpretes de sofrimentos que nem sempre reconhecem. Tampouco é razoável exigir que escolas acolham todas as dificuldades emocionais sem profissionais, estrutura e recursos. A saúde mental na infância não é responsabilidade exclusiva de cada família: é também uma obrigação coletiva.
Slater chama a atenção para a insuficiência do atendimento em saúde mental e para as barreiras que impedem muitas crianças de receber diagnóstico e tratamento. Seu argumento desloca a discussão de uma pergunta confortável — quantas horas diante da tela? — para outra, mais incômoda: quantas crianças em sofrimento passam despercebidas enquanto discutimos apenas o aparelho que carregam nas mãos?
Campanhas, recomendações e regras podem ser úteis. Mas, sem ampliar o acesso ao atendimento psicológico e psiquiátrico, fortalecer a rede de proteção e oferecer às famílias condições reais de cuidado, a sociedade corre o risco de combater o sinal e abandonar a origem do problema. Vivemos cercados de instrumentos destinados a conectar pessoas, mas tropeçamos na arte elementar de prestar atenção umas às outras. Conhecemos a velocidade das notificações; muitas vezes, porém, não sabemos permanecer diante de uma criança sem apressar sua fala, corrigir sua emoção ou oferecer uma solução imediata.
A presença exige uma disponibilidade que nenhum aplicativo consegue instalar. É preciso escutar sem transformar a conversa em interrogatório, perguntar sem antecipar a resposta e aceitar que o silêncio de um filho talvez não seja uma ofensa, mas uma porta que ainda não aprendeu a abrir. Isso também vale para os adultos: muitos condenam o tempo de tela dos filhos enquanto consultam compulsivamente as próprias notificações, levam o trabalho para a mesa do jantar e interrompem conversas para responder a alguém ausente.
Uma regra doméstica perde força quando o exemplo aponta na direção contrária. As crianças aprendem não apenas com o que dizemos, mas com aquilo que fazemos sem perceber que estão olhando. Talvez a primeira medida de prevenção comece menos com o dedo apontado para o celular da criança e mais com uma pergunta dirigida a nós mesmos: que espécie de presença oferecemos a quem depende de nós?
Não se trata de idealizar um passado sem telas, como se outras gerações fossem imunes à solidão ou à tristeza. Cada época inventa suas distrações e seus esconderijos. Agora, muitos cabem no bolso, funcionam sem interrupção e disputam a atenção de crianças em desenvolvimento. Reconhecer isso exige prudência, limites e responsabilidade — não pânico moral. A resposta mais consistente combina educação digital, regras proporcionais à idade, exemplo dos adultos e avaliação profissional quando há sinais persistentes de sofrimento ou prejuízo à vida cotidiana.
O celular não precisa ser transformado em inimigo para que estabeleçamos fronteiras; a criança não precisa ser vista como vítima indefesa para que reconheçamos sua vulnerabilidade. Entre permissividade e proibição existe um território mais exigente: acompanhamento atento, educação digital, conversa e cuidado profissional quando necessário. Talvez não compreendamos de imediato o que acontece do outro lado da tela. A resposta pode não vir na primeira conversa, nem na segunda. Há sofrimentos que exigem tempo, confiança e ajuda especializada. O essencial é não desistir de perguntar — e não confundir ausência de resposta com ausência de dor.
A luz que ilumina o rosto de uma criança não revela tudo o que acontece dentro dela. Pode mostrar fascínio, tédio, alegria ou dependência; sozinha, não explica nenhuma dessas experiências. Para compreender, precisamos recuperar aquilo que a tecnologia não substitui: vínculo, escuta e disposição para reconhecer o outro para além de seu comportamento.
Antes de apagar a tela, convém olhar para a criança. Antes de condenar o hábito, investigar o que o sustenta. Antes de proclamar uma solução, admitir a complexidade do problema. Talvez o maior risco não esteja apenas no tempo que nossos filhos passam conectados, mas no tempo que passamos sem perceber o que lhes acontece.
Há telas que precisam ser desligadas. Há hábitos que precisam ser interrompidos. Mas há, sobretudo, crianças que precisam ser vistas — não apenas quando levantam os olhos do celular, mas também quando já não conseguem levantá-los.
Palmarí H. de Lucena