Se Frans Post retornasse hoje à cidade que ajudou a fixar no imaginário europeu, talvez não dissesse muito. Seu olhar sempre falou antes das palavras. Mas, se fosse obrigado a comentar o que veria, sua reflexão dificilmente seria indulgente — e tampouco estridente. Seria uma crítica silenciosa, construída pela comparação entre função e abandono.
Post reconheceria imediatamente o traçado. O relevo ainda está ali. As igrejas permanecem como marcos de orientação. O rio Sanhauá continua a definir a geografia. Mas algo essencial teria se perdido: o vínculo entre forma urbana e vida cotidiana. A cidade que ele pintou não era bonita por intenção estética; era bela porque funcionava. Porto, comércio, moradia e espaço simbólico coexistiam. Hoje, esse pacto foi rompido.
Ele estranharia, sobretudo, a ideia de preservação sem presença humana. Para um pintor do século XVII, edifícios vazios seriam sinal de colapso, não de cuidado. Igrejas sem entorno vivo, casarões sem moradores, ruas sem circulação não seriam patrimônio — seriam indícios de uma cidade que se retirou de si mesma. Post não entenderia por que se restaura aquilo que não se quer habitar.
Talvez perguntasse, com a lógica simples de quem observa a paisagem como sistema:
— Para quem é esta cidade?
Não para turistas ocasionais, responderia o silêncio. Não para moradores, indicariam as portas fechadas. Não para o trabalho cotidiano, sugeririam as ruas que dormem cedo demais.
Post também notaria a inversão simbólica: o centro, que deveria organizar a cidade, foi transformado em exceção. Tornou-se lugar de evento, não de permanência. Espaço de memória, não de futuro. Ele perceberia que a política urbana contemporânea prefere administrar o centro como imagem — algo a ser exibido — em vez de tratá-lo como infraestrutura viva.
E talvez fizesse sua crítica mais dura justamente onde menos se espera: na ausência de conflito assumido. Para Post, paisagens revelam escolhas. Quando uma cidade evita decidir, a paisagem acusa. O Centro Histórico de João Pessoa não foi derrotado por forças inevitáveis, mas por uma sequência de não-decisões: não adensar, não morar, não misturar usos, não contrariar interesses consolidados fora do núcleo antigo.
Se pintasse hoje, suas telas seriam mais vazias. Não por opção estética, mas por fidelidade ao real. Pintaria fachadas íntegras diante de calçadas sem passos. Um rio contido à margem. Uma cidade antiga preservada como quem guarda um objeto delicado — sem coragem de usá-lo.
E talvez, ao final, Post dissesse algo que soa incômodo ao presente:
que cidade histórica não se protege com zelo administrativo, mas com vida comum.
Que centros existem para concentrar gente, não para afastá-la.
E que nenhuma política urbana se sustenta quando confunde memória com imobilidade.
A crítica de Frans Post, se existisse, não seria moral nem ideológica. Seria pictórica. Bastaria colocar lado a lado a cidade que ele viu — funcional, integrada, habitada — e a que hoje se apresenta — correta na forma, frágil no conteúdo. O contraste falaria sozinho.
E talvez esse fosse o julgamento mais severo: não o de quem acusa, mas o de quem registra fielmente um vazio que poderia ter sido evitado.
Por Palmarí H. de Lucena