Donald Trump deseja realmente disputar um terceiro mandato, ou suas declarações sobre o assunto são apenas provocação? Pretende tomar a Faixa de Gaza e deslocar milhões de palestinos, ou essa ideia foi apenas uma especulação? O Mês da História Negra deve ser descartado como um desperdício de tempo e dinheiro ou celebrado com pompa na Casa Branca?
Quem busca respostas definitivas para essas questões encontrará um labirinto de ambiguidades.
Desde que reassumiu a presidência, Trump tem feito de sua retórica um terreno movediço. Suas posições oscilam com frequência, muitas vezes no mesmo dia, criando um jogo de espelhos em que cada um vê o reflexo que deseja. Esse método confunde adversários e seguidores, permitindo interpretações múltiplas sobre suas reais intenções.
Essa estratégia, no entanto, não é nova. Durante seu primeiro mandato, Trump já era conhecido por distorcer fatos e disseminar inverdades. Agora, com um programa político ainda mais incisivo, suas contradições tornaram-se ainda mais evidentes e deliberadas.
Para o historiador Julian E. Zelizer, professor de Princeton, a questão central não é a incoerência, mas sim a capacidade de criar sempre uma saída conveniente. Em um cenário onde a informação se fragmenta em bolhas ideológicas, Trump compreende instintivamente que as pessoas acreditarão no que mais lhes convém.
Seu segundo mandato já coleciona decisões controversas. Concedeu indulto a manifestantes que atacaram policiais no Capitólio, ainda que afirme apoiar as forças de segurança. Criticou políticas de inclusão, sugerindo que a diversidade compromete a competência profissional, mas, ao ser questionado, reformulou seu discurso: “Queremos os mais qualificados, independentemente de sua raça”.
Medidas de combate à desigualdade foram desmontadas, e a ordem para que o Departamento de Defesa não utilizasse recursos para celebrar o Mês da História Negra foi rapidamente seguida por uma cerimônia oficial em homenagem à data dentro da própria Casa Branca. A incoerência, nesse jogo, não parece um deslize, mas sim uma tática.
No tabuleiro internacional, o padrão se repete. Trump sugeriu transformar Gaza em um centro turístico após deslocar sua população, mas, diante da repercussão, afirmou que sua declaração não passava de uma recomendação. Convidou a Groenlândia a tornar-se parte dos Estados Unidos, para logo depois insinuar que essa decisão poderia não ser opcional. Sobre a Ucrânia, chamou Volodymyr Zelensky de “ditador sem eleições”, mas, ao ser confrontado, negou ter feito tal afirmação.
A Casa Branca, por sua vez, sustenta que essas ambiguidades fazem parte da estratégia de um negociador experiente. Para Karoline Leavitt, secretária de imprensa, Trump é “o presidente mais acessível e transparente da história” e os americanos sabem reconhecer “a arte da negociação”.
Tony Schwartz, coautor do livro A Arte da Negociação, sugere uma outra perspectiva: para Trump, a precisão dos fatos nunca foi o objetivo; a prioridade sempre foi o controle da narrativa. Seu estilo de discurso, errático e imprevisível, faz parte dessa construção. Trump muitas vezes lança ideias no ar, como o desejo de um terceiro mandato, criando um clima de incerteza e expectativa que mantém seus seguidores atentos e seus opositores desorientados.
Contudo, especialistas alertam para os riscos desse jogo. Jason Stanley, professor da Universidade de Yale, aponta que a destruição da consistência discursiva pode minar a própria democracia. “Se não há um consenso sobre a realidade, a única verdade válida será a imposta pelo líder”, afirma.
No fim, a pergunta persiste: Trump acredita no que diz, ou tudo faz parte de um cálculo político? Seja qual for a resposta, seu governo continua a ser definido pelo mesmo princípio que o levou ao poder: a imprevisibilidade.
Palmarí H. de Lucena