Primeiro vem o cheiro. Antes mesmo de a fila aparecer, o aroma da comida já percorreu os corredores da escola. Depois vêm os sons: cadeiras arrastando, passos apressados, vozes que se cruzam e o tilintar das colheres nos pratos. Quando a merenda começa, até o ritmo da escola parece mudar.
É uma cena banal, e talvez por isso mesmo importante. Um prato, uma colher, arroz, feijão, talvez legumes ou uma fruta. Para algumas crianças, é apenas mais uma refeição. Para outras, pode ser uma das mais importantes do dia. A diferença não aparece na fila. Está no que acontece depois que cada uma recebe o seu prato.
A fome raramente entra na sala de aula pela porta da frente. Prefere chegar disfarçada de cansaço, distração, irritação. Uma criança pode estar olhando para o quadro enquanto pensa em outra coisa inteiramente diferente: quando vai comer de novo. É difícil competir com o estômago quando ele resolve participar da aula.
Há uma ironia discreta nisso tudo. O mundo se reúne para discutir metas, indicadores e prazos para acabar com a fome, enquanto, a poucos quilômetros de qualquer sala de conferência, uma fila se organiza diante de uma panela. De um lado, palavras como desenvolvimento sustentável e segurança alimentar. Do outro, uma criança esperando o próprio prato.
O Brasil, felizmente, não está exatamente onde estava alguns anos atrás. Os dados mais recentes mostram redução da insegurança alimentar e o país permanece fora do Mapa da Fome da ONU. Mas os números também lembram que uma melhora estatística não faz desaparecer, de uma hora para outra, a preocupação que existe dentro de uma casa quando a comida precisa ser calculada até o fim do mês. Em 2024, 24,2% dos domicílios brasileiros ainda estavam em algum grau de insegurança alimentar.
É nesse intervalo entre o avanço e o que ainda falta que a merenda ganha importância. Em todo o país, o Programa Nacional de Alimentação Escolar atende cerca de 40 milhões de estudantes da educação básica pública. A política tem números, regras, repasses e cardápios, mas, na ponta, tudo isso precisa caber numa experiência muito menos abstrata: uma criança sentada diante de um prato de comida.
Mas o prato não termina na infância. O corpo segue fazendo perguntas à comida, embora as perguntas mudem com o tempo. Mais adiante, já na velhice, uma refeição adequada pode significar força para caminhar até a feira, preparar o próprio almoço, cuidar da casa ou sair para uma consulta. São gestos tão comuns que quase desaparecem de vista — até o dia em que a falta de força transforma um deles em dificuldade.
Os registros do SISVAN de 2023 ajudam a iluminar essa outra ponta da vida. Entre os idosos acompanhados, 12,26% apresentavam desnutrição e 51,32% tinham excesso de peso. O contraste parece caber apenas numa tabela, mas fala de corpos diferentes, necessidades diferentes e de uma mesma questão: alimentar-se bem também é uma forma de preservar autonomia. Na velhice, comer não diz respeito apenas a matar a fome; pode dizer respeito a continuar fazendo sozinho aquilo que, durante tantos anos, pareceu automático.
Se, na escola, a alimentação pode sustentar crescimento, desenvolvimento, atenção e aprendizado, mais tarde ela pode ajudar a sustentar força, saúde e independência. Entre uma ponta e outra da vida, a necessidade permanece, embora o modo de senti-la se transforme. Há momentos em que o alimento ajuda uma criança a aprender o mundo; em outros, ajuda um adulto a continuar habitando o próprio mundo com autonomia.
É curioso que uma necessidade tão elementar esteja no centro de uma expressão tão ampla quanto ODS 2. A Agenda 2030 da ONU fala em acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover uma agricultura sustentável. Parece linguagem de documento internacional. Na escola, porém, a meta precisa enfrentar uma prova muito mais concreta: chegar ao prato. E, na velhice, outra pergunta aparece: esse prato é suficiente para que alguém continue vivendo com saúde e autonomia?
E o prato tem uma história que começa muito antes da escola e continua muito depois dela. O arroz veio de algum lugar. O feijão também. Houve terra, água, trabalho, transporte, preço e mercado. Talvez tenha havido uma seca no caminho ou uma chuva excessiva. Talvez alguém tenha acordado antes do sol para trabalhar na plantação. A alimentação, quando chega à mesa, já carrega uma cadeia inteira de decisões e de trabalhos que quase nunca aparecem diante de quem segura a colher.
É por isso que a merenda merece mais atenção do que costuma receber — e que a alimentação, em qualquer idade, merece ser tratada como questão de cuidado. Ela é um daqueles lugares em que agricultura, educação, saúde, renda e políticas públicas se encontram sem precisar marcar reunião. É também um dos pontos em que uma sociedade revela, sem muito discurso, o que considera básico.
Uma criança não escolhe a renda da família. Um idoso não escolhe o preço dos alimentos. Ambos, porém, podem sentir essas circunstâncias no próprio corpo. A desigualdade, que costuma aparecer em gráficos e relatórios, às vezes assume uma forma muito mais simples: o que há no prato e o que ficou de fora.
O sinal toca outra vez. A fila desaparece. As crianças voltam para a sala, e o corredor recupera seu barulho habitual. Em outro lugar, talvez um idoso esteja colocando a panela no fogo, separando os alimentos do almoço ou calculando se a compra da semana vai caber no orçamento. São cenas diferentes, mas atravessadas pela mesma pergunta silenciosa: haverá comida suficiente, e será ela capaz de alimentar de verdade?
Sobre algumas mesas, restam apenas os pratos vazios. Em outras, resta a preocupação com a próxima refeição. Talvez seja uma cena pequena demais para caber numa agenda internacional. Mas é justamente nessas cenas que uma política pública deixa de ser número e ganha corpo.
No fim, alimentar alguém continua sendo uma das formas mais simples de cuidar.
Palmarí H. de Lucena