O que ainda pode ser escrito

O que ainda pode ser escrito

Há palavras que o tempo não consegue gastar. Paz. Perdão. Compaixão. Esperança. Nós as repetimos tantas vezes que, às vezes, já não percebemos inteiramente o peso que carregam. Tornaram-se palavras próximas, quase domésticas, como aquelas que habitam a casa há tanto tempo que deixamos de reparar nelas. E, no entanto, continuam guardando uma exigência silenciosa: a de que aquilo que dizemos transforme, de algum modo, a maneira como vivemos.

É talvez por isso que a Oração de São Francisco de Assis ainda nos alcance: não como uma fórmula antiga, preservada apenas pela tradição, mas como uma pergunta que atravessa o tempo e chega até nós com uma desconcertante atualidade.

Seu pedido não é o de quem espera passivamente por um mundo melhor. Ao desejar ser instrumento da paz, Francisco desloca o centro da oração. A paz deixa de ser apenas aquilo que esperamos receber dos outros e passa a ser também uma responsabilidade íntima. Antes de perguntar o que o mundo pode fazer por nós, somos convidados a perguntar o que, através de nós, pode chegar ao mundo.

Há nisso uma forma profunda de espiritualidade: compreender que a transformação exterior começa, muitas vezes, em uma região que ninguém vê. Dentro de nós.

Talvez seja possível aproximar essa ideia da antiga imagem da tábula rasa: a consciência como uma superfície aberta ao aprendizado, às experiências e às marcas da existência. Mas a vida parece nos ensinar algo mais complexo. Ninguém permanece verdadeiramente em branco. Chegamos ao presente trazendo conosco nomes, perdas, afetos, medos, escolhas, silêncios e acontecimentos que deixaram sua inscrição. Cada experiência, de alguma maneira, escreve em nós.

Somos escritos pelo que vivemos. Mas não somos apenas aquilo que nos escreveu.

Talvez exista uma liberdade discreta nessa descoberta. Aprender não significa voltar a uma existência sem marcas; significa descobrir que ainda podemos atribuir novos sentidos às marcas que permanecem. A transformação interior não consiste em apagar o passado. Consiste em aprender a não ser governado por ele.

Uma ferida pode nos ensinar a cuidar sem transformar a dor em dureza. Um erro pode nos conduzir à humildade sem se tornar uma condenação permanente. Uma perda pode aprofundar nossa compreensão da impermanência. Uma decepção pode nos tornar mais lúcidos sem nos convencer de que todo afeto termina necessariamente em abandono.

Há uma sabedoria particular em não permitir que aquilo que nos feriu determine, sozinho, tudo aquilo que seremos.

Talvez esse seja um dos sentidos mais delicados do aprendizado: não repetir automaticamente aquilo que recebemos. A vida nos oferece, quase sempre, a possibilidade de interromper uma herança que não queremos continuar carregando. Onde houve violência, interromper a violência. Onde houve indiferença, oferecer presença. Onde houve ressentimento, abrir, quando possível, uma passagem para o perdão.

Não porque a dor não tenha importância, mas porque não precisamos perpetuá-la para provar que ela existiu.

Perdoar, nesse sentido, não é absolver o passado nem negar a justiça. É recusar à ofensa o direito de ocupar para sempre o centro da nossa vida. É reconhecer o que aconteceu sem permitir que o acontecimento determine, indefinidamente, aquilo que ainda podemos ser.

A oração de São Francisco não promete uma existência sem conflito. Talvez ofereça algo mais difícil: uma maneira de permanecer humano diante do conflito.

E talvez seja justamente aí que sua dimensão espiritual se torne profundamente contemporânea.

Vivemos em uma época de respostas rápidas, julgamentos instantâneos e certezas que raramente suportam a demora necessária para compreender alguém. Tudo parece exigir uma reação imediata. Antes mesmo de compreender, já julgamos; antes de escutar, respondemos; antes de conhecer a história de alguém, muitas vezes já decidimos quem ele é.

Nesse cenário, escutar pode ser um ato de coragem. Silenciar antes de ferir pode ser uma forma de sabedoria. Pedir perdão pode exigir mais força do que vencer uma discussão.

A transformação, quase nunca, chega anunciada.

Às vezes, ela começa em coisas pequenas: na palavra que escolhemos quando poderíamos ter escolhido outra; na respiração que damos antes de responder; na decisão de não devolver ao mundo exatamente aquilo que dele recebemos. Começa também quando compreendemos que a bondade não é fraqueza, mas uma disciplina interior — uma escolha que precisa ser renovada justamente nos dias em que seria mais fácil abandoná-la.

Talvez amadurecer seja isso: compreender que não somos páginas em branco, mas também não somos um texto concluído.

Há rasuras. Há capítulos que gostaríamos de reescrever. Há frases que jamais poderemos retirar. Existem acontecimentos que permanecerão como parte da nossa história, mesmo quando já não quisermos falar deles. Mas há também frases que ainda não foram escritas. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de esperança.

Não a esperança ingênua de começar tudo novamente. A vida raramente nos concede esse privilégio. Trata-se de uma esperança mais austera, mais silenciosa e, talvez por isso mesmo, mais verdadeira: a esperança de continuar.

Continuar aprendendo. Continuar reparando. Continuar amando apesar do conhecimento que adquirimos sobre a fragilidade humana.

A espiritualidade de Francisco parece nascer desse movimento delicado entre humildade e possibilidade. Reconhecer que somos pequenos sem concluir que somos impotentes. Aceitar que somos imperfeitos sem desistir da transformação. Compreender que o mundo não será salvo por nossas intenções, mas pode ser discretamente modificado por nossos gestos.

No fim, talvez a verdadeira tábula rasa não seja uma página sem marcas.

Talvez seja a coragem de olhar para uma página marcada e, ainda assim, acreditar que existe espaço para escrever algo novo.

Porque a vida nem sempre nos oferece a oportunidade de começar outra vez. Oferece-nos algo mais precioso: a possibilidade de continuar a partir de onde estamos. Com mais consciência, mais compaixão e, quem sabe, um pouco mais de luz.

Talvez seja isso que São Francisco nos recorda, em uma oração que atravessou os séculos sem perder a capacidade de nos interpelar: a paz que procuramos no mundo pode começar como uma pequena decisão dentro de nós.

Uma decisão quase invisível.

Mas toda semente é, de certo modo, uma promessa de floresta.

E talvez ainda seja possível escrever.

Não sobre uma página limpa, porque nenhuma vida é verdadeiramente limpa de marcas. Mas sobre a página que recebemos: aquela que traz as rasuras, os afetos, as perdas, os erros, as aprendizagens e tudo aquilo que nos trouxe até aqui.

Ainda há espaço.

Ainda há palavras.

Ainda há, apesar de tudo, alguma coisa que pode ser escrita.

Palmarí H. de Lucena