Após publicar meu artigo O Silêncio do Brasil diante do Nobel de María Corina Machado, recebi uma mensagem de um amigo. Era respeitosa, mas carregada de perplexidade e indignação — sentimentos compreensíveis num tempo em que as fronteiras entre opinião e convicção se tornaram inflamáveis. Sua nota, escrita com sinceridade e afeto, expressava repúdio à figura da premiada e desconforto com o texto. Ainda assim, terminava com uma frase que resumia tudo: “Continuo seu amigo.”
Esse gesto simples contém o que falta ao mundo: a capacidade de divergir sem romper. É justamente aí que começa o sentido da paz — não na ausência de conflito, mas na preservação da convivência.
Vivemos dias em que compreender é confundido com concordar. A pressa em rotular transformou a reflexão em suspeita, e o debate público se tornou uma arena de certezas. Em vez de argumentos, trocamos fidelidades; em vez de ideias, distribuímos ofensas. A serenidade virou quase um ato de resistência.
Ao escrever sobre María Corina Machado, minha intenção não foi canonizá-la nem ignorar suas contradições. Busquei compreender o significado simbólico do gesto do Comitê Nobel — o de reconhecer uma mulher que, mesmo em meio a um regime autoritário, insiste na via democrática. Analisei o prêmio, não a pessoa. Há uma diferença essencial entre entender um fenômeno e endossá-lo.
O Nobel, em mais de um século, tem reservado às mulheres um lugar simbólico na narrativa da paz. Bertha von Suttner, a escritora que inspirou o próprio Alfred Nobel, dizia que “a paz começa quando o medo termina”. Depois vieram Rigoberta Menchú Tum, indígena maia que denunciou o genocídio de seu povo; Wangari Maathai, que plantou árvores e consciência no Quênia; Shirin Ebadi, que enfrentou o patriarcado iraniano com leis e palavras; Malala Yousafzai, que transformou uma bala em escola; e Nadia Murad, que sobreviveu à escravidão sexual para lutar contra o esquecimento.
Cada uma delas mostrou que a paz não é prêmio dos fortes, mas conquista dos persistentes. Quando o Nobel se volta a uma mulher, ele reafirma que a paz nasce da resistência civil, da compaixão ativa e da recusa à violência — mesmo quando a própria sobrevivência está em jogo. Nesse sentido, a escolha de María Corina Machado, por mais controversa que seja, mantém coerência com essa tradição: o Comitê a premia não por pureza ideológica, mas pela obstinação de quem continua a lutar por liberdade em meio ao medo.
O desconforto que esse gesto causa é natural. O prêmio da paz sempre provocou reações intensas: basta lembrar Barack Obama, laureado mais pela esperança do que pela ação, ou Aung San Suu Kyi, que depois decepcionou o mundo. O Nobel não é canonização — é declaração simbólica. E símbolos, como sabemos, sempre dividem.
A verdade é que o Brasil, como o mundo, vive uma crise de convivência intelectual e afetiva. Discutir virou perigoso; duvidar, um ato de coragem. Já não sabemos separar a análise da adesão, e esquecemos que compreender não é trair — é buscar sentido no que nos desafia.
Responder àquela mensagem, através desta crônica, é para mim um exercício de serenidade. Não escrevo para convencer, mas para compreender — e, ao fazê-lo, quero agradecer a franqueza com que meu amigo expressou seu desconforto. A sinceridade, quando nasce do respeito, é um gesto de amizade rara nos dias de hoje. Se ainda somos capazes de divergir sem apagar o vínculo humano, algo essencial permanece de pé — talvez a própria ideia de paz, essa que começa não nos prêmios ou discursos, mas na disposição de escutar o outro com empatia e calma.
E talvez seja isso o que o Nobel tenta nos lembrar, ainda que de forma imperfeita: que a paz não é uma medalha, mas uma prática diária, que começa nas conversas difíceis, nas amizades que resistem, nas pontes que insistimos em não queimar. Vivemos cercados por vozes que tentam reduzir o mundo a dois lados, como se o pensamento crítico fosse uma traição. Mas a história — das mulheres laureadas com o Nobel às simples trocas entre amigos — mostra que a verdadeira força humana está na convivência com o diferente.
A paz, afinal, não nasce dos iguais. Ela nasce do encontro dos contrários, quando a razão se une à empatia e a palavra se transforma em ponte, não em muro. Preservar o diálogo é, hoje, o mais nobre dos gestos políticos e o mais silencioso dos atos de resistência.
Por Palmarí H. de Lucena