O Português do Algoritmo

O Português do Algoritmo

Outro dia, numa cafeteria, ouvi a conversa de dois adolescentes na mesa ao lado. Não estava prestando atenção; eles é que falavam com a natural convicção de quem acredita que uma boa história merece ser compartilhada com o ambiente inteiro. Entre um gole de refrigerante e outro, surgiram palavras como aura, cringe, red flag e insano. Olhei discretamente em volta. Ninguém parecia estranhar aquela sequência de expressões. Concluí, sem qualquer ressentimento, que o estrangeiro era eu.

A língua portuguesa sempre teve o hábito de escapar das mãos de quem imagina conhecê-la. Quando eu era menino, meus avós estranhavam certas palavras que circulavam entre os jovens. Mais tarde fui eu quem torceu o nariz para o vocabulário dos meus filhos. Agora chegam os netos e descubro que o idioma resolveu acelerar o passo. Antigamente as gírias precisavam conquistar a rua. Saíam da escola, atravessavam o bairro, apareciam nas arquibancadas do futebol, chegavam aos programas de televisão e, se sobrevivessem a essa longa viagem, acabavam incorporadas ao vocabulário de muita gente. Hoje basta um vídeo de poucos segundos. Antes do almoço, uma expressão já percorreu o país; no dia seguinte, corre o risco de parecer antiquada.

Foi nesse intervalo cada vez menor entre o nascimento e o esquecimento das palavras que os influenciadores ganharam um papel inesperado. Em outros tempos, as gírias pertenciam às ruas; agora parecem nascer diante da câmera de um telefone celular. Um criador de conteúdo experimenta uma expressão, milhares de pessoas a repetem e, quando ela finalmente chega aos que ainda tentam entendê-la, outra já ocupa o seu lugar. Nunca houve tantos fabricantes de palavras. E talvez nunca uma palavra tenha vivido tão pouco.

Foi assim que conheci a tal da aura. Passei boa parte da vida acreditando que essa palavra pertencesse ao vocabulário dos filósofos, dos espiritualistas e das pessoas que acendem um incenso antes de qualquer conversa séria. Descobri, porém, que ela havia mudado de profissão. Deixara os filósofos em paz para se transformar numa espécie de índice de prestígio social. Existe agora uma contabilidade invisível: tropeçar na calçada reduz a aura, acertar uma bola de papel na lixeira recupera o saldo, vestir a roupa errada provoca uma pequena desvalorização e entrar num café aparentando absoluta indiferença ao mundo parece render dividendos inesperados. Nunca o velho carisma foi administrado com tamanha precisão contábil.

Também me diverte a generosidade dos adjetivos. As coisas perderam o direito de ser apenas boas. Um café precisa ser transformador, uma garrafa térmica muda a vida do proprietário e qualquer acontecimento corriqueiro recebe imediatamente o certificado de ‘icônico’ ou ‘insano’. Há nisso um entusiasmo que desperta mais simpatia do que estranheza. Talvez toda geração exagere um pouco para convencer a si mesma de que está descobrindo o mundo pela primeira vez.

As palavras estrangeiras também desembarcaram sem pedir licença. Dá-se ghosting, procura-se engajamento, comenta-se o shape de alguém, e tudo isso convive pacificamente com verbos, substantivos e expressões nascidas deste lado do Atlântico. A língua portuguesa, que sempre foi hospitaleira, acomoda essas visitas sem grandes cerimônias. Algumas se adaptam, outras desaparecem rapidamente, e quase todas acabam provando que o idioma possui muito mais elasticidade do que imaginam seus guardiões.

Nem por isso vale a pena implicar com os jovens. Seria uma injustiça histórica. Também nós usamos palavras que pareciam eternas e hoje soam curiosas. Toda geração acredita ter encontrado a maneira definitiva de falar, até descobrir que a língua já começou a preparar outra mudança. Ela nunca foi imóvel. É como um rio: conserva o nome enquanto a água passa sem cessar.

Enquanto pagava a conta, os dois rapazes se levantaram e foram embora, ainda conversando naquele idioma que me parecera tão novo. Permaneci alguns minutos olhando as xícaras vazias sobre a mesa ao lado e pensei que, dentro de alguns anos, aquelas palavras talvez soassem tão antigas quanto as que hoje sobrevivem apenas na lembrança dos mais velhos. A língua tem esse costume discreto de trocar de roupa sem nunca deixar de ser ela mesma. Nós é que, de repente, nos surpreendemos diante do espelho e percebemos que o tempo passou por nós antes de passar pelas palavras.

Palmarí H. de Lucena